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Dos tantos adesivos fixados nos automóveis – toscos, bem humorados, de bom e mau gosto ou simplesmente publicitários – há um em especial que me chama a atenção. É um cowboy que, com seu laço, segura uma cowgirl pela perna.

As interpretações podem ser as mais diversas. Por um lado, por mais inocentes e bem intencionadas que algumas delas possam ser (normalmente, nesses casos, detratores do chamado politicamente correto diriam que isso não passa de uma brincadeira e de uma piada), nada me demove da ideia que essa representação pictórica esteja carregada de uma violência extrema. Apenas mais uma amostra das agressões às quais as mulheres, em maior e menor grau, são submetidas diariamente. Um parênteses: (mesmo que uma mulher, aquela que é agredida, diga que isso não passa de uma brincadeira – porque ela mesma, como mulher, não se sente violentada – não arredo meu pé em salientar o teor violento e de mau gosto de tal imagem).

cavernas

Há uma imagem clássica, que remete ao neandertal, em que o homem carrega um tacape em uma das mãos e, na outra, arrasta sua mulher pelos cabelos (perceba que na releitura dessa representação, a mulher está projetada com um dos padrões belezas atuais: loira, olhos claros, peitos siliconados). A lógica das duas imagens é a mesma: o homem, com seus atributos físicos, se utiliza da violência para domar (isso mesmo, domar) a mulher.  Tais seres, que carregavam 99,7% do nosso DNA, viveram, de acordo com a wikipedia, de 390 a 29 mil anos atrás. É um bom tempo, né?

E depois dessas centenas de milhares de anos, encontramos recentemente – apenas recentemente (uns 100 anos, no máximo?) – uma mudança substancial (será mesmo?), ainda que de apenas parte da sociedade ocidental. Esse último parágrafo, mesmo que não tenha sido construído puramente no achismo, é a impressão que tenho ao ler o mundo, ainda que seja apenas um recorte da minha realidade. E o que me estranha, de fato, é que as pessoas, em sua maioria, não conseguem enxergar essa violência como violência. Olhos obtusos – por uma série de motivos – cansados de repetir velhos estigmas de poderes instituídos como verdades universais.

Esse adesivo, diante desses olhos obtusos, é paisagem. Nada além de um piada que, ao invés de nos fazer gargalhar, reforça a condição à qual as mulheres estiveram (este sou eu com esperanças) submetidas por milhares de anos.


Diego Zerwes

É publicitário (UP) e Especialista em Literatura Brasileira e História Nacional (UTFPR). Trabalha na Comunicação do Colégio Medianeira. É tradutor (diletante) da vasta obra musical de Leonard Cohen, publicada periodicamente no Traduzindo Leonard Cohen.
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