Não resisti à tentação de dar esse título a este texto, frase recolhida pelos meus ouvidos, ao passar por um grupo de estudantes de uma faculdade particular e muito bem paga.

Sim, uma jovem bem vestida com roupas de grife e de aparência nutrida proferia essas palavras em tom de irritação. Nenhum problema nisso. Afinal, o lanchinho devia ter demorado um pouco mais pra acontecer naquele dia, e sentir fome é parte da experiência humana (não só humana, mas à humana acrescenta-se a consciência do fato). Fome, segundo o dicionário, é a sensação causada pela necessidade de comer. E comer é um ato necessário para que um ser se mantenha vivo. Mas o que acontece quando a fome chega e não há o que comer?

Fiquei pensando no significado disso para alguém como aquela moça e tantos outros brasileiros que nunca souberam o que é sentir fome e não ter como saciá-la. Que bom que eles não sabem o que é isso. Porque mais da metade do Brasil já viveu essa situação e hoje é rechaçada por causa de um irrisório bolsa alguma coisa.

A tal frase da estudante me pegou no dia seguinte ao primeiro episódio de panelaço dos bairros chiques. Um panelaço normalmente acontece quando pessoas não têm o que colocar na panela e, em sinal de protesto, batem nela. Putz, nada a ver com o ocorrido.

Protestar, todos têm esse direito. Mas espera aí, vamos ter ao menos um pingo de coerência.

Levanto duas hipóteses para a incoerente escolha de panelas para o protesto que, aliás, virou moda entre alguns abastados. Deu raiva, correm bater panelas.

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A primeira hipótese é desinformação total, do tipo ter alguma vaga lembrança de algum panelaço do tempo em que muita gente no Brasil não comia, sem conseguir associar o fato de bater panela com um protesto contra a fome, contra a panela vazia, fazendo da panela apenas um barulhaço, sem referencial simbólico. Ou, ainda, quando alguma categoria de trabalhadores está com seu salário defasado, com salários atrasados ou com benefícios cortados a ponto de comprometer até a alimentação (como foi o caso dos professores massacrados pelo governador playboy, gastão do dinheiro público), daí sim é o caso de se usar a panela como símbolo.

A segunda hipótese é muito pior do que a primeira. Ou seja, o uso da panela justamente para bater na questão de que os famintos de outrora encheram suas panelas, e sem roubar a comida da panela dos saciados. Cinismo, afinal, a forma elegante e refinada da maldade .

Sim, o Brasil saiu do mapa mundial da fome em 2014, e hoje é modelo no mundo devido a estratégias de combate à miséria. Conforme relatório da ONU, entre 2002 e 2013, a situação de subalimentação entre a população brasileira teve uma redução de 82%.

Isso deveria ser motivo de comemoração entre os irmãos de pátria, cristãos compadecidos, em situação de privilégio ou abençoados com a graça de ter o pão de cada dia e muito mais. Mas não, esse fato tem gerado ódio (e por isso o cinismo da panela, a revolta contra a panela cheia do antes miserável).  Insisto nisso porque realmente não entendo o que leva um ser humano a querer ver o outro abaixo de si, de preferência muito abaixo. Se uma ínfima aproximação ocorre é o suficiente para pânico no nível de cima.

Quanto mais penso nos possíveis desdobramentos dessa questão, mais me espanto com a maldade gestada no ventre do individualismo, de pai e mãe capitalistas ao extremo. O filho da pátria quer ver seu irmão sucumbir, o abençoado agradece a Deus porque o abençoou e não os outros (“eu tenho, você não tem”), mas se esquece de distribuir a bênção, pulando as páginas do evangelho em que Jesus Cristo ensina a partilhar.

Não estou aqui tentando acirrar uma luta de classes ou credos, mas apenas perplexa diante dos fatos que explodem com grande irracionalidade. Se metade do Brasil for embora pra Miami, em fuga para o paraíso do capitalismo pra não ver mais isso de redução de desigualdades, e a outra metade for embora pra Cuba, como são mandados diariamente e chamados de comunistas pelos que sonham com a fuga pra Miami, o que sobra?

Talvez um projeto de país que ainda não teve respaldo de sua população, que talvez ainda não se encontrou como população; que ainda se considera o refugo da bola terrestre e nação de gente ignorante e chinfrim; que não se vê como um todo, não se sente parte da coletividade; uns porque se consideram superiores demais para fazer parte da massa e outros porque absorveram a ideia de inferioridade e não se consideram à altura para estar no mesmo conceito de povo que outros. E ainda há emergentes que reproduzem a opressão assim que alcançam uma posição privilegiada.

É hora de dar uma trégua às posturas arraigadas e às rotulações e tentar pensar em coletividade as saídas para os problemas comuns. As causas pessoais são pequenas demais para serem expostas ao coletivo, e a insistência nelas nos faz parecer com a criança mimada que se joga ao chão, xinga e berra pra arrancar dos pais o que deseja naquele momento e talvez logo em seguida não deseje mais.

Encerro usando a sabedoria de Leonardo Boff, que analisa o ciclo de estímulos ao individualismo, que se não se encerrar conduzirá todos a uma “solidão aterradora e a uma profunda desumanização”.  Segundo Boff, “o remédio está em nós: a cooperação que gera a comunidade e a participação de todos na construção de um mundo no qual todos possam caber e viver minimamente felizes”.

Trata-se de uma escolha. Ou optamos pelo caminho da solidariedade e do cuidado com o outro, ou passamos o resto de nossos dias como um cachorro que persegue o próprio rabo, girando em torno de si mesmo até chegar a lugar algum ou ganindo com a dor da própria mordida.


Martinha Vieira

Foi professora de Língua Portuguesa do Colégio Medianeira por 20 anos e atualmente é responsável pelo Departamento de Arte. É formada em Letras – Português (UFPR), pós-graduada em Prática Educativa (PUCRJ) e em Produção da Arte e Gestão da Cultura (PUCPR).Leia outros artigos dele aqui.