004-guartela

Eis que se aproximava da sala de aula lá do fundo do corredor da Geografia, já anunciando o tema da aula, invariavelmente – e apaixonadamente – “placas tectônicas”, o professor, sempre disposto, intenso em sua vontade de compartilhar saberes e histórias, muitas histórias. Era, de certa forma, curioso vê-lo, um senhor grisalho, embora ainda na casa dos cinquenta, alto e falante, chegando na sala de aula com vários discos de vinil, elepês ou bolachões, embaixo dos braços, tudo muito encaixado, já que uma das mãos segurava vários livros – um deles certamente era de Arthur Conan Doyle – a outra trazia fósseis de trilobitas e do mesossaurus em pedaços de folhelhos. Podia, no entanto, se entrever, nas capas psicodélicas dos discos: Pink Floyd, Jethro Tull, Genesis, Yes… Nos anos 80, um senhor carregando aqueles discos, produções então atuais, recém forjadas dos estúdios, era pouco usual.

Adentrava na sala, que afinal era a sua sala. Era sempre ali que se projetavam os slides, e ele os fazia sempre. De súbito, alardeava com seu vozeirão, algo não localizável entre seriedade e gracejo: Olha aqui ó: meu filho, o Carlos[1], pediu para devolver esses discos aí… não sei para quem… só sei que é para um dos cabeludos! A turma dava risada. Assim iniciava a aula, descontraidamente, convite de boas vindas, passaporte para a viagem que nos levaria ao Grand Canyon, à Cratera do Arizona, a Yellowstone, à Islândia, à ilha de Krakatoa, ao Havaí e ao Kilauea, ao Humboldt e aos Andes, a Galápagos e ao Darwin, ao Saint Hilaire e ao Guartelá, às fossas e dorsais do assoalho oceânico – como era bonito ouvir “assoalho” oceânico!. “É para um de vocês, um dos cabeludos!!”, repetia o querido mestre.

Os cabeludos, esses éramos três, em meio a uma maioria de carecas por opção – ou não, por terem passados no vestibular: O Mauro, com sua vasta cabeleira encaracolada que crescia tanto para cima, como para os lados, num estilo Caetano no tempo dos Doces Bárbaros; o João Pedro de longos cabelos escuros, levemente ondulados e cuidadosamente tratados… ah aquela turma do Água Verde, da João Antônio Xavier, Cacau & cia, povo cabeça à beça; e, por fim, eu: um quase Rick Wakeman, lisos e loiras madeixas escorrendo para além dos ombros.  Quando ia de carona na lambreta de um ou do outro, ambos tinham suas lambretas, era engraçado: tanto os motoqueiros, o Mauro e o João Pedro, cujos cabelos rebeldes e satiricamente escapuliam pelas bordas do capacete, como eu, que usava então um capacete de pedreiro. Figuras, com certeza, curiosas em suas diárias travessias, pela Avenida das Torres – a linha dos estudantes -, do Politécnico à Reitoria. Depois, era da Reitoria ao Hugo Lange, lá para as Agrárias, ter aula de Solos. O vai e vem das “motocas” e as cabeleiras esvoaçantes. (Em meu caso, esvoaçaram tanto… que me foram embora. Mando lembranças, tenho saudades… condolências). Os discos de rock progressivo eram inevitavelmente do Mauro, os de reggae, eram do João Pedro. Quanto a mim, não tinha muitos discos, alguns do Supertramp, dos Beatles, do Milton Nascimento uma meia-dúzia, do Chico, de Caetano, do Alceu Valença, do Pepeu Gomes, da Elba e do Zé, os primos Ramalho, e aí aquela coleção de música clássica que meio que herdei em vida de meu pai. Não tinha muito vinil, mas gravava muita música em fita cassete…, essas que quase sempre torciam e se enroscavam nos cabeçotes dos aparelhos de som (Basf 60, Basf 90, Scotch…).

O professor, ah…esse grande professor, expressando na face o maior prazer em discorrer sobre tantos temas da natureza de nosso mundo e dos segredos que estavam apenas  começando – e continuam apenas começando – a serem desvendados de nosso cosmos. Sob seus óculos, ampliavam-se seus grandes olhos, ávidos, plenos de tanto ver e de querer ver mais ainda os infindáveis caprichos desse planeta que ele anunciava, emprestando sua voz e toda a sua emoção às narrativas de Carl Sagan e Issac Asimov.

No começo dos anos 1980 mal se falava de buracos negros e expansão do universo nas salas de aula, inclusive nas universidades. E, certamente, não se falava por aí de tectonismo, de colisão e subducção de placas litosféricas, de que as cordilheiras continuam se erguendo, que o Pacífico está em redução, que o Brasil e a África estão se afastando cerca de 3 centímetros a cada ano, que a África deverá perder uma parte do leste de seu território… Tudo isso era tão impressionante, quanto mágico. Como era mágico, antes do sucesso spielberguiano do Jurassic Park, alguém ter miniaturas de dinossauros. Pois, o professor os trazia para sala de aula, os nomeava e com orgulho os apresentava, um a um, cada sauro.

Se as aulas teóricas eram viagens fascinantes nas asas dos livros trazidos pelo professor, em seus diapositivos ou nos filmes de 16mm, imaginem as aulas de campo… Aí era a prova do conhecimento vivo, do explicar aquilo que se vivenciava, era a prova do se fazer sujeito ativo desse planeta, integrado a ele e a seu complexo sistema. Fomos ao Terceiro Planalto, nos campos frios de Guarapuava; fomos ao torrão natal do adorável mestre: os Campos Gerais, campos de tantas furnas, de tantos canyons, de tantos saltos, de tantos arenitos…. Quando fomos ao litoral, ele nos abriu a sua casa de praia. Quarenta estudantes saltando do ônibus para compartilhar o espaço de sua casa, churrascada enquanto folhávamos a sua gigantesca coleção da National Geographic, desde os anos 40, talvez de antes disso… Conhecimento e diversão, entrosamento factível: o acadêmico, o solidário, o lúdico.

Estimado Professor Olavo Soares: uma singela homenagem de seu devoto aluno. Certamente andas mapeando mais de perto as estrelas da Via Láctea e explorando os basaltos, granitos e arenitos de luas e planetas por aí, tal qual o pequeno príncipe de Exupéry. Um grande abraço, querido mestre amigo!

Dois links com uma breve biografia: Folha de São Paulo e SBP Brasil.

[1] O Carlos, na época estudante de geologia, é professor na UFPR, já há vários anos, na área de Geologia Marinha.


Francisco Rehme (o Chicho)

É geógrafo, professor de Geografia do 6º ano do EF e da 3ª série do EM do Colégio Medianeira. Especialista em Geografia Física – Análise Ambiental pela UFPR e em Currículo e Prática Educativa (PUC-Rio), é mestre em Geografia, dentro da linha de pesquisa Dinâmicas das Paisagens (UFPR).
Leia outros artigos dele aqui.