Três de nossas sondas espaciais mais arrojadas estão apenas agora deixando o Sistema Solar. São elas: Pioneer X, Voyager I e Voyager II. Conhecemos razoavelmente bem nossos vizinhos mundos planetários, especialmente Marte, em cuja superfície já deixamos rastros de nossa existência. Muitas das mais de 170 luas também já foram fotografadas de vários ângulos e distâncias pelos paparazzi espaciais; alguns despejando gases e lavas vulcânicas, outros revelando oceanos sob uma superfície congelada, uma delas tem até pegadas de bípedes e uma bandeira estrelada que, para ficar desfraldada, precisou da ajuda de uma haste ou coisa parecida. Já estivemos tête-à-tête com asteroides e cometas. Enfim, o Sistema Solar, esse micro quintal da galáxia já não nos é de todo desconhecido.

Porém, nenhuma nave espacial decolou o suficiente do braço de Sagitário, a periferia da Via Láctea em que nos encontramos, para fotografar a galáxia. Nenhuma imagem da Via Láctea vista do alto, de baixo, de perfil, de frente ou do avesso é de verdade uma foto, um átimo de realidade, um instantâneo capturado, um registro visual tal e qual. Todas as imagens da totalidade de nossa galáxia nos livros escolares ou em revistas científicas é desenho, é arte, é produção forjada da tinta ou computadorizada.

Então a pergunta tem sido inevitável – ainda bem – nos trinta anos de sala de aula, quando trato da Via Láctea e da nossa suposta localização nela: Pois bem, se não temos nenhuma foto da Via Láctea por inteira, vista de uma certa distância, então… como sabemos que ela é assim, espiralada, e que nos localizamos num dos “braços” da espiral?

Representação artística da Via Láctea, vista do alto

Representação artística da Via Láctea, vista do alto

Um garotinho, o José, que na época tinha talvez onze anos me presenteou, sem que o soubesse,  com uma metafórica resposta. Certo dia, ele me esperava na frente da sala dos professores com um saco plástico na mão. Ao me ver, disparou: “Olha aqui professor:  material arqueológico que encontramos no sítio da família”. Era cerca de uma dezena de cacos de cerâmica, alguns deles com traços feitos de uma pálida pintura avermelhada.

Era começo de 1985, se não estou enganado, no semestre anterior tivera aulas de Arqueologia com o grande mestre Igor Chmyz, na UFPR.  Pedi ao menino para levar os artefatos para serem avaliados pelo professor Igor. Em meio a provas e cadernos, encontrei na mochila um lugar para a sacolinha plástica com os pedaços de cerâmica e me mandei para a Reitoria da Federal. Subi até o último andar que o elevador alcançava…seria o 11º.? De lá subi mais um lance pela rampa que já rescendia ao fumo de cachimbo. O cheiro da arqueologia, algo que mescla esse tabaco com o pó dos museus e de seus objetos, estou certo de que reforça a expectativa, aguça ainda mais a curiosidade, tanto quanto molda a aura do mistério. E esse era o aroma de toda aquela cobertura, uma espécie de sótão do prédio, onde o professor Igor e seus discípulos, estagiários ou jovens arqueólogos e historiadores muito bem se refugiavam. Já havia estado lá outras duas ou três vezes. Centenas de objetos, inteiros, remendados ou aos cacos, se distribuíam por mesas, outro tanto se encontrava guardado, catalogado, em gavetas. Nas paredes, fotos aéreas e mapas, com diversas sinalizações apontavam os inúmeros locais escavados pelo Paraná afora.

Professor Igor Chmyz em uma escavação arqueológica na Praça Tiradentes, centro de Curitiba, em 2008. Foto: Lina Faria

Professor Igor Chmyz em uma escavação arqueológica na Praça Tiradentes, centro de Curitiba, em 2008. Foto: Lina Faria

Mostrei o material do sítio do José ao professor Igor. Ele os examinou e logo os colocou lado a lado com outras peças. Comparou sua espessura, o alto-relevo, a coloração.  Apresentou-me, então, um mapa da Região Metropolitana de Curitiba e me perguntou onde ficava a chácara. Disse-lhe que ficava bem próximo ao rio Una, em Campo Largo da Roseira, no município de São José dos Pinhais. Então ele cravou a sua primeira conclusão: esse material deve ser do período dos primeiros arraiais de garimpo, possivelmente do século XVII, quando se instalaram, de forma provisória, os primeiros núcleos de povoamento não-indígena no Primeiro Planalto. Lembro-me que ele afirmara tratar-se de “cerâmica cabocla”, com uma fusão de características portuguesas e indígenas: o fundo chato revelado por um pedaço maior de cerâmica, indicava um claro legado lusitano: o vaso, ou o que quer que tais cacos compusessem, ficava sobre uma superfície plana, como a de uma mesa. Os adornos, com seu característico traçado na cor vermelha eram a identidade ameríndia.

E então o professor Igor fez o que me levou a traçar uma analogia com a composição da galáxia: (Já tínhamos até nos esquecido dela.) Próximo a alguns vasos de cerâmica,     desenrolou uma folha de papel em branco, tamanho grande, como um A2, e dispôs sobre ela os fragmentos argilosos, aquele tesouro do menino José. Encaixou alguns deles em fronteiras que eu não imaginava, determinou certos espaços entre outros. A peça que fazia o fundo plano, deixou-a na parte inferior do papel. Pegou uma caneta hidrocor (ainda existe isso?) e desenhou. Suas linhas uniam-se aos cacos de cerâmica e rapidamente estava esboçado, como que magicamente, uma pequena urna, geometricamente caprichosa. Uma dúzia ou pouco mais de fragmentos de barro cozido passava a fazer sentido de um todo. O coletivo, desgarrado, espatifado, se fez uno.

Construir uma galáxia a partir dos cacos de cerâmica... isso é possível, ou é coisa de louco? Original em

Construir uma galáxia a partir dos cacos de cerâmica… isso é possível, ou é coisa de louco? Original em Peabiru Calunga

Retome seu olhar para o céu estrelado. Quem sabe, imagine o céu daquele jeito que não se vê mais. Ou que se vê quando se está bem longe das luzes das cidades e de sua fumaceira. Aquele punhado de alguns poucos milhares de estrelas, aquelas nebulosas que vemos a olho nu, são apenas fragmentos, cacos da Via Láctea. Acomodados em nosso cantinho da galáxia, sentimo-nos tão seguros entre seus braços e enxergamos muito pouco da Via Láctea. Mas, com telescópios, fincados no solo ou em órbita, avistamos milhares de outras galáxias. Conhecemos sua aparência, forma, composição. Sabemos como elas são, ou seria melhor: como eram, já que a luz dessas “vizinhas” chega até ao telescópio e aos nossos olhos depois de uma travessia de milhares ou milhões de anos (as mais próximas estão a mais de 100.000 anos-luz daqui). Enfim, catando e agrupando pedaços de cerâmica, vestígios de uma cultura do passado, creio que podemos compor, ainda que de modo pretensioso – e que Deus nos desculpe – o nosso vasto lar galáctico.

PS: Outro dia relatamos como foi a escavação arqueológica que fizemos (eu, o menino José e o Professor Igor)  no sítio do rio Una, a partir dos cacos de cerâmica – ou da galáxia, à sua livre escolha – afortunadamente trazidos pelo garotinho.


Francisco Rehme (o Chicho)

É geógrafo, professor de Geografia do 6º ano do EF e da 3ª série do EM do Colégio Medianeira. Especialista em Geografia Física – Análise Ambiental pela UFPR e em Currículo e Prática Educativa (PUC-Rio), é mestre em Geografia, dentro da linha de pesquisa Dinâmicas das Paisagens (UFPR).
Leia outros artigos dele aqui.