Tenho vivido nos últimos tempos experiências que me levam de volta ao fazer manual, uma fuga consciente da automação e da terceirização. Não que eu seja saudosista de um tempo que não vivi propriamente, ou saudosista de uma época conhecida apenas pelas histórias contadas por nossos pais, avós, bisavós e – por que não? – tataravós. Os processos manuais de então, acredito, foram aos poucos sendo abandonados. E o que estou tentando proporcionar – a mim mesmo, seja dito – é uma experiência diferente, vivenciando atividades que, por falta de tempo, relegamos para terceiros.

Essa experiência, que chamo de diferente, nada mais é do que um mergulho naquilo que se está disposto a vivenciar. Quando não se conhece muito bem o objeto (como será visto nos exemplos a seguir), há sempre a quem (ou a que) recorrer. Eu uso basicamente duas fontes de informações: a internet e meu pai.

A internet, como se encontra hoje, é também um ambiente colaborativo. Muitos usuários participam de chats, fóruns, sempre tentando resolver um problema em comum. Seja trocar uma peça de um celular ou traduzir as legendas de um novo seriado. Há sempre pessoas conversando sobre e encontrando soluções juntos. Quando se fala em manutenção de eletrônicos (netbooks, celulares, tablets), há sites com informações completas ensinando a montar e desmontá-los.

A segunda fonte de informações, meu pai, é datada de uma época pré-internet. Todo o conhecimento aplicado no desempenho das tarefas abaixo teve, ou tem, a ver com o aprendizado que tive com ele.

Por exemplo, antes de fazer um solitário (mas nem tanto) retiro espiritual pelo litoral de Santa Catarina em janeiro deste ano, era necessário fazer o rodízio dos pneus do carro. Bem, um borracheiro ou qualquer mecânico se encarregaria facilmente disso. No entanto, tenho apreciado resolver esse tipo de problema do meu próprio modo. Nesse caso, para que o procedimento fosse efetuado, fazia-se necessário elevar a lateral inteira do carro. Utilizando-me de dois macacos hidráulicos, um pouco de esforço para soltar e prender novamente os parafusos, termino o serviço talvez no triplo do tempo que um profissional levaria, mas feliz e satisfeito com o resultado. Como consequência, as mãos ficaram pretas de fuligem. Nada que uma escova e sabão não resolveram.

Getting ready for the road, Jack.

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Nessa onda do faça você mesmo (do inglês, do it yourself – DIY), infeliz por ter que pagar uns 100 reais pela mão-de-obra da troca do óleo do carro, resolvi fazer a manutenção por minha própria conta. Uma consultoria especializada foi necessária: meu pai com seus conhecimentos de 30 anos de estrada. Dizem que as novas gerações têm como característica o imediatismo, de querer tudo pra agora, sem paciência para desenvolver uma tarefa mais elaborada. Bem, nesse caso foi exatamente o oposto. Meu pai, do alto do seu conhecimento sobre mecânica em geral, exigia de mim o conhecimento do engenheiro que desenvolveu o último motor da Fórmula 1. Sua impaciência era manifesta, principalmente nos momentos em que ele tentava arrancar a chave da minha mão. Não é das coisas mais complicadas de fazer. Pra mim, nem tão simples assim, mas, com cuidado e atenção, o resultado não foi desprezível. Todo o processo, dessa vez, durou 5 vezes mais do que teria sido necessário. Mas, novamente, eu fiquei extremamente satisfeito com o serviço e 100 reais mais rico. 

#trocadeoleo #homemade A photo posted by Diego Zerwes (@zerwes) on

Num mundo tão rápido e aparentemente tão cheio de complicações, dificuldades e meandros, resolver com as próprias mãos (e ferramentas certas) pequenas tarefas como essas ajudam a estabelecer um contato com aquilo que, talvez, tenhamos perdido ou, quem sabe até, nunca tivemos.


Diego Zerwes

É publicitário (UP) e Especialista em Literatura Brasileira e História Nacional (UTFPR). Trabalha na Comunicação do Colégio Medianeira. É tradutor (diletante) da vasta obra musical de Leonard Cohen, publicada periodicamente no Traduzindo Leonard Cohen.
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