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Não é fácil ter nascido na década de 1970. E não digo isso pelos anos 70 em si, quando eu mal me conhecia por gente e só queria saber de brincar, ralar joelho, essas coisas. Assistir a televisão era um evento comum, mas com uma aura um pouco diferente: poucos canais, a grade infantil estava longe de passar 24 horas por dia e os horários sagrados de alguns programas nos faziam sair da escola correndo para não perder o episódio.

Foi na década de 1980 que vi entrar na minha casa o telefone fixo e também o aparelho de som, três em um. O primeiro disco de vinil em casa foi O disco do Povo, que conservei até bem pouco tempo, com clássicos do calibre de “Fuscão preto”. Foi também na passagem das décadas de 70 para a de 80 que eu ganhei meu primeiro livro, O cachorrinho Samba na floresta, da Maria José Dupré. E só depois da metade da década de 80 é que eu ganhei o meu primeiro disco, que eu havia pedido: Milton Nascimento. E por quê? Porque em toda abertura de jogos escolares de que eu participava, tocava-se “Coração de Estudante”. Eu era fascinado. É uma de minhas primeiras lembranças de algo chamado sentimentalismo.

Onde quero chegar com esse texto cheirando poeira e mofo e traça? Quero dizer que mais ou menos até os 17 anos, eu tinha uns 5 discos, um telefone fixo para toda a família, 2 canais de TV a que eu efetivamente assistia, e uma meia dúzia de livros. Meu universo se aproximava de uma era pré-Big Bang: cabia em uma gaveta (d)e meia.

De volta para o futuro.

2014-2015. Resolvi fazer uma reforma em meu apartamento. Para isso, é necessário fazer um negócio que podemos chamar de destralhação. Jogar fora aquilo que acumulamos ao longo dos anos e que, por um zelo neurótico – ou paranoico? –, teimamos em guardar, seja para preservar a memória do que já fomos, usando objetos como âncora simbólica a nos prender a um passado impiedoso que não para de se distanciar no horizonte, seja porque um dia nossos filhos vão ver como as coisas funcionavam, seja – dentro de um espírito mais pragmático – porque quem sabe eu precise disso um dia.

O que aconteceu desde os meus 17 anos? Que mares naveguei para chegar aos 40 anos com o barco cheio de bugigangas? Por que tantos aparelhos eletrônicos? Videocassete, som 4 em 1, agora com espaço para cd, home theater, modem, tv velha, um aparelho celular, duas câmeras fotográficas, aparelhos de som de vários quilates, computador. E os fios que ligam isso tudo? Uma quantidade impressionante de cabos pretos, brancos e amarelos – para que tantos cabos, meu Deus? pergunta meu coração. Porém minhas retinas fatigadas não perguntam nada, apenas exercem o trabalho mecânico de encher sacolas e caixas de lixo eletrônico, ponteiras misteriosas, plugues suspeitos, pilhas vazadas, fones de ouvido mutilados, rca, supervídeo, placa ethernet (?), carregador, adaptador para o carregador, câmera, cabo de rede, aparelhinho de mp3.

Ser filho da década de 1970 é vestir como luva o ditado popular: quem nunca comeu melado quando come se lambuza. Uma era de muitas restrições, tanto financeira quanto tecnológica, chegava ao fim e não mais que de repente abriam-se portas para um universo antes inimaginável de oportunidades. É possível ter música saindo de aparelhinhos e aparelhões, vídeos podem ser vistos em telinhas e telonas (a qualquer hora!), conectividade, convergência ao mesmo tempo em que, de maneira contraditória, multiplicam-se opções de aparelhos, você pode estar acompanhado de tudo isso, sempre perto de um device, de um gadget, música, vídeo, notícias, melhor som, melhor imagem, melhor velocidade de dados. Até que a cabeça explode. Ou amortece.

Conhecer um pouco da história é bom, nos deixa mais modestos e nos tira do centro do mundo. Essa experiência da empolgação desvairada diante das tantas facilidades foi vivida em outros períodos, como, por exemplo, no início do século XX, com os eletrodomésticos invadindo a casa das famílias americanas e, depois, de boa parte do mundo. Eu poderia ter aprendido com a experiência do passado, com a geração que produziu e cuspiu toneladas incontáveis de lixo numa época em que aquecimento global era expressão vazia, consciência planetária uma abstração risível. Em vez de aprender, estou aqui passando vergonha ao me confessar um jovem guloso, fascinado pelas maravilhas da tecnologia que colocaria nas minhas mãos o poder sobre a informação, sobre os principais bens culturais, música, filmes, fotos etc.

Hoje me vejo jogando aliviado um monte de aparelhos obsoletos. Pelo menos tive a dignidade de doar aqueles que ainda serviam. Nunca fui bom em negócios e sempre levei em conta o valor de uso, muito mais do que o valor de troca. Não à toa, na infância, troquei uma bicicleta por dois jogos de botão.

E, por fim, chega o momento em que eu deveria aconselhar os mais novos. Mas acho que não preciso fechar tudo com uma moral da história. Talvez valha a pena dizer somente que, de tudo, ficou muito pouco. Entre as coisas que permaneceram em casa, estão, em papel, cartas de amor.

Cezar Tridapalli

É coordenador de Midiaeducação no Colégio Medianeira. Formado em Letras (UFPR), especialista em Leitura de Múltiplas Linguagens (PUCPR) e mestre em Estudos Literários (UFPR), é também escritor, autor dos romances Pequena Biografia de Desejos (7Letras) e O beijo de Schiller (Arte&Letra), vencedor do Prêmio Minas Gerais de Literatura 2013. www.cezartridapalli.com.br
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