AULA DE VIOLINO

 

estendeu o braço esquerdo

apoiou o violino

(três quartos)

no pequeno ombro

suavemente, mas convicta

passou o arco

de uma ponta a outra

a primeira corda

tingindo o silêncio

cores pardas

da melódica travessia

sob o fio do arco

range a corda

depois a outra

a terceira e então a quarta

rapsódia chorosa

pequena menina

orquestrou de ti minhas lembranças

desde quando cabias

em meu antebraço

tal como hoje acalantas

o violino que em teu membro

se debruça e aconchega

- e só não adormece

pois que lhe é forçoso cantar -

 

Súbito, de olhos marejados

ergui-me

larguei o ensaio

e segui embalado

pela toada de sua fresca vida

nos dissonantes caminhos que me esperavam.


 

POR AQUI A ÁGUA DESCE DO CÉU

 

Essa estória de escrever é coisa séria:

é preciso muita responsabilidade no que se afirma

do contrário as pessoas não te dão crédito

e a sua relação mediada pelo papel e a tinta

se finda antes de se dobrar a esquina do primeiro parágrafo.

 

Assim, choveu pela milésima vez naquele dia em Curitiba

-ou quase isso-

essa cidade epífita mimetismada de amazônia

mormaçava de tal modo que a umidade escorria

dos cabelos tanto quanto das paredes

num limo morno polvilhando o ar denso de bolor

 

e no repentino breque do vento

o anúncio quase soprado

na hora em que a terra prende a respiração

- e ai de uma folha que ouse se mover!-

O calor de daqui a pouco

emprenha a chuva do logo mais.

 

 


 

Mastiguei até o último açúcar

a frase derradeira do romance

Com pesar fechei o livro

prolonguei o enredo por alguns minutos

meio extasiado sobre a poltrona

sensação estranha:

tornamo-nos cúmplices da história

do autor dos personagens

como se vivêssemos juntos

por isso a impressão dolorosa

de um divórcio sofrido

quando se fecha a história