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Em 1997 voltava do aeroporto de Curitiba com canadenses recém-chegados ao país. Vinham ao Brasil divulgar cursos de línguas e intercâmbios culturais. No trajeto até o centro da cidade os inevitáveis comentários de quem abordava uma nova cultura.

Na direção do papo e do caminho, conduzia o carro e a conversa tentando controlar ingenuamente a evidente realidade através das janelas do veículo.

As perguntas giravam em torno da fama de uma suposta capital modelo, de primeiro mundo…

Mais adiante, o primeiro radar de velocidade da via de acesso à cidade apresentava um dos modelos: o modus operandi de parte da população motorizada dava boas vindas aos visitantes.

Por que todos reduziram a velocidade repentinamente?

A resposta seria óbvia para qualquer pessoa minimamente imersa na cultura da cidade. Porém, para aquele quarteto de olhos atentos ao novo e ao diferente, o comportamento desafiava a compreensão e o bom senso.

O que deveria ter respondido?

Vejam bem… faz parte da cultura local. Temos regras, mas sabemos onde e quando elas valem ou não. Nos entendemos muito bem assim! Vão dizer que lá vocês mantêm a velocidade alta sob fiscalização?

Se está escrito em algum lugar? Rsrsrs… não, não! Claro que não! Isto é normal para todos. Não ficamos indignados com o descumprimento das leis quando somos nós mesmos os beneficiados. Sabemos bem quando podemos ou não cumpri-las… Fiquem tranquilos!

Obviamente, não proferi tal choque de realidade mantido a sete chaves sob uma aura modelar por nós de primeiro mundo… Seria algo muito forte para um primeiro contato com a cultura local, ou, talvez, algo tão revelador sobre nossa realidade quanto o que havia sentido alguns meses antes quando na cidade de Toronto estive. Lembro-me bem…

Era uma manhã geladíssima. Imagine o frio mais intenso de Curitiba e eleve-o ao quadrado.

Saí da casa em que estava hospedado, e a paisagem monocromática revestia tudo o que se podia enxergar. Era um desses bairros tranquilos com raros automóveis na rua e pessoas que se amparavam do frio escondidas em suas casas.

Exageros a parte, passos acima na rua gelada me faziam sentir saudade do calor curitibano em julho.

Ao chegar à esquina, em um cruzamento, ouvi um barulho ao longe: cores difusas em meio ao monótono branco. Como um cão, condicionado e obediente a algo supostamente superior, parei próximo ao asfalto e esperei o carro passar.

Mas…

Quão surpreso você ficaria se te dissesse que, em meio ao nada, quem também decidiu parar foi o carro?

Sim! O carro parou!

Não! Não havia radares!

Na verdade nem olhos fofoqueiros para fazer o dono do carro receber uma medalha pela “boa-ação do dia”!

Simplesmente o carro parou!

E, não somente isto… O carro parou e, dentro dele, havia um ser humano que, indignado, suplicava para que eu atravessasse a rua para que ele, somente então, com a consciência limpa, pudesse passar. Ele tinha horário, oras!

Desconfiado, atravessei! Olhei para todos os lados da rua para me certificar que não era alguma pegadinha ou alguma coisa sórdida desta espécie…

Muitos anos depois, eu que nunca havia vivenciado isto, experimentei uma espécie de déjà vu já em meu país…

Férias em cidade litorânea catarinense lotada. O asfalto denunciava sua temperatura de tempos de aquecimento global acelerado. Tudo muito diferente do frio canadense, certo?

Na verdade, não!

Em meio à miragem que se formava no asfalto quente junto ao cruzamento das ruas que tentava atravessar, surge ele: o carro que comprovou que, na parte sul do continente americano, gentileza e cumprimento de regras de convivência estão longe de serem fenômenos ópticos ilusórios.

Final de história: aquele carro, brasileiríssimo, também parou, assim como tantos outros o fizeram naquele lugar, e me pôs a pensar no meio da rua, que nem Toronto ou Barra Velha-SC devem ser parte do primeiro mundo que conheci.

Alessandro França Quadrado

É graduado em Letras (2008) e Arquitetura e Urbanismo (1997). É especialista em Línguas Estrangeiras Modernas e professor de Língua Inglesa há 20 anos. É ex-aluno do Colégio Medianeira e atual supervisor do Núcleo de Linguagens do Ensino Médio.
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