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Às vezes, uma situação nos faz pensar muito, se apoiando em opiniões próprias e nas imagináveis. E então aparecem as várias possibilidades de como encará-la. De repente acontece até de avaliar a relativa significância dos fatos e da própria situação frente ao todo – Todo, todo? Ou o todo até onde os olhos alcançam? -. Faz relacionar os pesos dos objetos envolvidos, da bicicleta, da tinta. Do apego. Pois eu me apego. Ora mais, ora menos, mais ou menos, mas pego mal e também desapego, menos, com mais dificuldade, ai, ui, vai, foi, tchau, já era.

Com tal acúmulo de coisas que há por toda parte, por todos os quartinhos da bagunça, os de paredes de tijolos e os de massa cinzenta, tanta potência empoeirada, tanta poeira com potencial pra voar, mas não, deixa tudo lá, quieto. Mas eu citei a bicicleta. Ela não estava de poeira nem nada, nem de bobeira estava. A primeira bicicleta que comprei ao chegar em Curitiba. Não tem marca e, pra resumir, é só compará-la, em termos de composição e peças, ao Frankenstein, criatura. Mas quando me refiro a ela, entre os que a conhecem, digo ‘A Simprezinha’. Palavra-nome que pede desconforto linguístico e que me foi dada por um amigo que também gosta dela. O freio é no próprio pedal, bastando forçá-lo para trás. O banco, de plástico/courino/vinil, sei lá, tanto faz, tem molas. Aros 26, mais largos que os vistos por aí, pedem pneus também diferenciados, não melhores, só diferentes dos mais comuns. O guidão é estreito, me faz lembrar o Roy, do seriado noventista Família Dinossauro. A mesa de direção é azul, de marca genérica², com quatro parafusos que parecem não mais poderem ser retirados dali. Acabo gostando desse apego. Do quadro feminino de um charmoso bege, com marcas grosseiras da última necessária solda, que serve também para que não confundam as coisas. Coloquei um bagageiro e posso dizer que fiz até fretes com ela, coisas grandes.

Os objetos, quando veículos, meios de transportar-se, são companhia da vida. Tenho histórias com ela de dia, de noite, madrugada, tarde, passeando, correndo, voando, caindo, caindo-voando, modelo pra foto, como posição ideal para assobiar, entre outras. E, ontem, após três meses e meio de tê-la emprestado, eis que ela volta – Aliás, eis que vou buscá-la depois de receber uma mensagem de celular dizendo a senha do cadeado que a prendia no bicicletário, onde eu deveria deixar a trava ao retirar. E foi assim, parecida com um pagamento de resgate, a devolução da bike que ofereci quando vi o pedido de empréstimo em um grupo do facebook.

Pedalar novamente A Simprezinha, à noite, mesmo que por um pequeno trecho, mesmo que a pessoa para quem emprestei tenha pintado flores e insetos coloridos no quadro e colocado penduricalhos na manopla e eu tenha achado essa atitude complexa demais para ter acontecido com aquele modelo de simplicidade, mesmo com um novo pequeno rasgo no banco, foi uma delícia, simpresmente. E mesmo que essa situação me afete por alguns dias, tenho apego pelo ato de emprestar e seus desdobramentos, mas surpresas boas ainda são as mais legais.

Bruno Ruiz

Bruno Ruiz é acadêmico de licenciatura em Artes Visuais na Faculdade de Artes do Paraná (FAP) e trabalha no setor Audiovisual do Colégio Medianeira.
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