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Junho e julho de 2013 foram meses ricos para o repensar da política e democracia brasileira. Caras pintadas, máscaras, cartazes, indignação, ruas com ar de revolta…

A violência sofrida pela grande maioria, “finalmente”, manifestou-se unida e a utopia passou a figurar, tímida, nas conversas e na mídia historicamente tão “honesta” e “imparcial” (não podemos vencê-los, nos unamos a eles para depois manipulá-los). Os cientistas políticos rapidamente se apropriaram do inesperado que irrompia e as análises sofreram deslocamentos, pois, afinal, um “novo” sujeito político “emergiu” da fragmentação das massas para colocar alguns interditos à Política e à Democracia representativa. Seria o fim da política partidária? Da democracia dos conchavos, do “jeitinho”, da politicalha, como nos dizia Rui Barbosa? Primavera nascente ainda no inverno.

Transporte público, liberdade de expressão, greves “gerais”… Os noticiários estiveram recheados desses acontecimentos e criou-se uma atmosfera de que o “gigante acordou” e o que representava o Gigante e seus interesses já não dava conta dos desafios diários e da vontade de mudança. Quantas vezes vimos os cartazes NÃO ME REPRESENTA? Sujeitos empunhando frases desconexas e incapazes de ler suas próprias reivindicações?

Os meses se passaram, a passagem de ônibus, silenciosa, foi novamente reajustada. As ruas passaram novamente a lugar de consumo, assaltos, silêncios, histórias privadas.  Mas, internamente, uma indignação permaneceu prestes a explodir.

E as elites souberam muito bem utilizar-se desse sentimento de “indignação” com relação ao real e repentinamente o caos aparente se instalou no Brasil. Corrupção, tema antigo entre nós tupiniquim, passou a existir como se nunca estivesse presente no DNA das oligarquias! Mensalão, escândalo da Petrobras, crescimento econômico, PIB, recessão, inflação… E os “heróis” nacionais comeram a brotar dos ralos…

E o coração do povo, cheio de sentimento de justiça, passou a nomear essas sensações com conceitos semelhantes: esquerda, Dilma, comunismo (de onde?)… A aprovação do governo petista, considerada muito boa nos meses de abril e maio de 2013 (ao menos para a maioria da população), entrou repentinamente em declínio. E os nossos velhos e amarelos partidos neoliberais assumiram a função de justiceiros e passaram a responder a pergunta: Se “isso” não te representa, fique tranquilo, NÓS TE REPRESENTAREMOS. “Nós, neoliberais (velhos liberais), defensores do Estado mínimo, das privatizações, da propriedade privada (desde que não seja para todos), da livre concorrência (para 1% da população de bem-sucedidos)… criadores generosos do sistema de reeleição para a dinastia sangrenta, da crise energética, dos escândalos da SIVAM, DO PROER, da perda significativa do poder de compra do Real, das altas taxas de inflação (picos de 12% ao ano), dos parcos reajustes ao Salário Mínimo… Sim, “Nós te representaremos”.

As aristocracias nacionais, de costas para a América do Sul, de olhos e sonhos voltados para a do norte (no passado o sonho era atravessar o Atlântico), tão acostumadas ao mando da força bruta, voltaram a ter esperança; os antigos projetos já arquivados nos baús da história foram desempoeirados e viraram, pasmem, Planos de governo (com P indicando a novidade!!!) e propostas de mudança de uma nova política que já nasce podre. Os espíritos já soterrados voltaram a tomar a cena diante da possibilidade de mais exploração com menos esforço (não que a exploração tenha deixado de acontecer… o lucro anual dos Bancos está aí para nos lembrar…).

Nem os argumentos factuais – a verdade, por ser coletiva, pode também ser manipulada – parecem capazes de dar conta da ficção enredada. E os novos velhos preconceitos tão arraigados à nossa cultura de centro começaram a ser narrados com muito mais força: nordestino é “menos informado” – leia-se ignorante, pobre, miserável, que vota com a barriga. O Sul e o centro, sempre eles, esclarecidos, iluminados e, claro, fazedores de política, no sentido genuíno. Mas, que há de genuíno, por exemplo, na disputa e nos resultados da eleição paranaense? Deixemos a resposta aos que criaram o “genuíno”. Não?

E o debate polarizado no maniqueísmo histórico, vendido, mas do ponto de vista prático quase inexistente, carimbou vários discursos. Que significa ser de direita, hoje? E de esquerda? A esquerda ainda existe? A fobia de tudo que soe a povo, em alta, tem também ódio a tudo que exija conexão lógica, intuição intelectual, como nos dizia Adorno e Horkheimer. Padronização de costumes, ações, sentimentos.

Essa semana, por sorte, chegou-nos à mão uma série de textos do nosso Graciliano, o Ramos. A maioria deles da década de 30 do século XX. Apreciemos, brevemente, um trecho:

Para o habitante do litoral o sertanejo é um indivíduo meio selvagem, faminto, esfarrapado, sujo, com um rosário de contas enormes, chapéu de couro e faca de ponta. Falso, preguiçoso, colérico, vingativo. Não tem morada certa, desloca-se do Juazeiro do padre Cícero para o grupo de Lampião, abandona facilmente a mulher e os filhos… É esse, pouco mais o ou menos, o sertanejo que a gente da cidade se acostumou a ver em jornais e em livros. Como, porém, livros e jornais de ordinário são feitos por cidadãos que nunca estiveram no interior, o tipo que apresentam é um produto literário…

A cidade mudou, o sertão também. Mas a nossa visão, que fizeram dela? Quem a determina? Para além de todos os anacronismos, somos obrigados a reconhecer que no grupo dos genuínos e inteligentes, muita gente ainda propaga e acredita piamente no que não conhece e nunca viu. Reproduzem e compartilham argumentos pífios e vazios, porém a amplitude da fofoca pós-moderna ganha potencia atômica e corrói, de modo reacionário, quaisquer discussões levantadas. Bolsa família e empregada doméstica com carteira assinada e férias: absurdo, descaso e descuido com aqueles que realmente fazem Brasil. Investimento do governo no setor privado, bolsas de doutorado na Europa: caminhos de crescimento e desenvolvimento econômico. Será?

Perguntamo-nos por que tantos pesos e tantas medidas a ponto de já não mais sabermos se há possibilidade de uma análise justa e correta das várias facetas do real compartilhadas por nós hoje? As traições e mentiras emergem de todos os lados, mas um dos lados pende com muito mais força e, infelizmente, não está sendo lido de modo sério e honesto. O mesmo e velho filme, rodando inclusive com o mesmo título teima em ser vendido como inovação.

Enfim, relembremos o velho e odiado Marx (pedimos desculpas, caro leitor, por utilizarmos uma citação tão imprópria no presente):

Hegel observa, em uma de suas obras que todos os fatos e personagens de grande importância na história do mundo ocorrem, por assim dizer, duas vezes. E esqueceu-se de acrescentar: a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa (MARX, 1982.

A farsa, para nós brasileiros, parece que não se cansa de retornar, talvez porque internalizamos demais o espírito da comédia…

 

Mayco Delavy

É formado em Filosofia (FAJE – Faculdade Jesuíta, BH, MG), especialista em Ética (PUCPR) e mestrando em Filosofia (PUCPR). Já trabalhou com apenados (2006/07) na Pastoral Carcerária e no Comitê de Direitos Humanos em João Pessoa (PB) e Belo Horizonte (MG). Atualmente, trabalha no Serviço de Orientação Pedagógica de 8º e 9º anos, no Colégio Medianeira. Leia outros artigos dele aqui.