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O título deste artigo é emprestado do livro “O Espectador Emancipado”, do filósofo francês Jacques Rancière e de uma percepção minha da sobredosis na veia jugular de uma proliferação das imagens que nos causam mal-estar, medo, ojeriza.

Esta imagem pertence a uma série realizada pelo fotógrafo iemenita Bushra Almutawakel e eu a encontrei em um blog espanhol. Precisamente agora existe uma discussão neste país sobre a proibição, em espaços públicos, do uso da burca (ainda que a Espanha seja um país que receba historicamente um grande fluxo de imigrantes onde o uso da burca é obrigatório para as mulheres).

Poderíamos ler essa série de fotografias apenas com o olhar passeador de quem vê uma fotografia e rapidamente gira o olhar a qualquer outro ponto; no entanto, é impossível dissociá-la do conteúdo social e político que vem junto dela.

A observadora como espectadora tem o poder de converter uma fotografia em um cenário teatral no qual o que vemos congelado na fotografia é reanimado, tem voz, som, sentimento. Pede-se, aqui, que o espectador tome parte, que ele se mova da posição de espectador passivo para se tornar também responsável por ela, estudá-la mais a fundo, transformando essas imagens em revindicações.

Ver e construir conceitos e ideias é liberdade de todos, mas, também, é responsabilidade de todos. A fotografia como invento significa que todos podemos construir imagens, mas também implica que todos estamos expostos. Se uma imagem pode tornar-se intolerável, por que não a existência da mesma ideia a qual ela provoca?

A fotografia é ativa e ver uma fotografia não significa, na contemporaneidade, uma mera contemplação, é também uma ação. Assim, a fotografia pode ser uma forma de desenvolver e sustentar habilidades políticas e ser uma forma de nos distanciarmos do poder como consumo (consumo das imagens), para o poder como um ato relacional, potencializando a imagem, tornando-a afeto, emancipando-nos como espectadores que somos (Braidotti, 2005). Para que uma fotografia seja representação, ela não pode ser somente uma prova, ela precisa ser também testemunho ou relato de experiência de enxergar e de uma posterior tomada de consciência que essa visão proporciona. Aí reside a diferença primordial entre ver e enxergar – a intencionalidade da mirada. É uma relação entre imagem e narrativa, mas também entre mostrar e a impossibilidade de dizer. O que fazemos com a responsabilidade de olhar?

Por isso, como educadora, sempre permaneço na angústia, sobretudo com as séries iniciais, sobre como abordar o “conhecimento difícil” da cultura e da história. Está tudo aí e é preciso ver além das batalhas napoleônicas, dos grandes mestres da pintura expressionista ou da filosofia alemã, somente para citar alguns temas como exemplo – protagonistas homens e olhar eurocêntrico. Os personagens da nossa cultura e da nossa história não precisam ser imaginados, pois eles estão aqui agora mesmo, povoando o nosso universo visual e pouco, ou nada, falamos sobre eles e elas na Escola. O “conhecimento difícil” trata dos limites sobre aquilo que pode ou não virar experiência educativa, o que é simplesmente obsceno representar porque resulta em uma espetacularização da dor e da vulnerabilidade dos corpos dos outros, de si.

Mas ao tornar estas imagens projeto educativo é possível estabelecer níveis de consciência política sobre as posições e privilégios que possuímos e reconhecer que impor a outras pessoas representações de si mesmo é opressivo. É mais opressivo querer ver a mulher sem o hijab do que aceitar a representação mostrada na foto. Porém, deste lado do mundo vivemos a enganadora sensação de liberdade por estarmos com nossos corpos livres e expostos, por podermos comprar e consumir produtos que “elas” não podem: anticoncepcionais, absorventes, cosméticos, filmes, jogos, etc., e nos vestirmos da forma como “elas” não podem. Um olhar atento percebe os nuances que nos unem na amplitude das nossas culturas. Escolher o que vestir não implica, necessariamente, liberdade de agir, por exemplo. Por favor, não sejamos ingênuas em acreditar no contrário.

Por que tantas meninas nas escolas de todo o mundo estão fotografando-se nuas e enviando essas imagens aos meninos? Quem é o portador dessas imagens? Que elementos sociais as constituem? É preciso dilatar a reflexão antes de responder, pois na maioria das vezes o cancro que tanto incomoda e causa mal-estar nasce precisamente no mundo dos adultos.

Uma hipótese para esse fenômeno é a reprodução do modelo de Pandora, “a que tudo dá”. Na mitologia grega, ela é a primeira mulher criada a pedido de Zeus com o fim de agradar aos homens. Ela também representa o desejo, a curiosidade sobre o invisível, o ato transgressor, o voyeur, que permite construir fantasias e figurações com o corpo, o desejo em saber o que existe na Caixa de Pandora. Isso ocorre em todo o mundo, em todas as culturas, das mais primitivas às mais cosmopolitas. Neste ponto, as fotos das meninas poderiam se aproximar da foto acima. O que não podemos revelar das nossas caixas de Pandora? As fotografias respondem a um olhar masculino; o exibir o corpo e o ocultar o corpo são atuações performáticas que pouco tem a ver com o ato político ou religioso.

Talvez seja interessante construir um olhar para estas fotos desde o feminino. Já imaginou? Onde as mulheres sejam elas mesmas enunciadoras de suas visões e miradas, sexualidade, gênero. Trata-se de produzir uma retórica visual baseada em relacionar-se com essas imagens, textos e obras produzidos por outras mulheres, para que então, talvez, seja possível criar uma relação baseada na curiosidade, encontro, afeto e até mesmo implicabilidade.

Olhar para a foto da mulher coberta tornando-se, pouco a pouco, transparente apenas com olhar de mulher emancipada, vivendo em um sistema de governo – dito – democrata, liberal e laico não é suficiente para dizer o quanto elas sofrem e são humilhadas dentro de um sistema intolerante de governo, como o Talibã, precisamente pelo fato de que a dor e o sofrimento são temas intoleráveis nos dias de hoje.

Ana Paula Luz

É sempre-aluna do Colégio Medianeira e atual professora da Oficina de Artes Visuais e da disciplina de Arte do 8º ano do Ensino Fundamental. Formada em Belas Artes (FAP) e especialista em História da Arte (EMBAP), é ainda mestre e doutora em Arte e Educação pela Universidade de Barcelona.
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