Isso foi mais ou menos no tempo em que alcançava uns quatro metros de altura, ainda esguio, mas já majestoso, o jacarandá plantado por meu pai. Havia uma época do ano, não recordo qual, em que caía ao solo gramado sua bainha seca, semiaberta, meio cordiforme. Aquilo produzia um som bacana quando batido por uma varetinha de madeira, qualquer coisa que lembrasse uma pequena baqueta. Usei na minha coleção meio “surpresas de velho baú”, que compunha a minha percussão nos tempos da banda e me ajudava a marcar os tempos e contratempos do ritmo do reggae, do baião e de tudo o mais que nos aventurássemos a tocar.

Pois então, foi naqueles idos… Ouvia, estendido num sofá, algum disco, um vinil, na vitrola que ocupava metade de um móvel, algo como um balcão.  A outra metade ficava com o rádio que sintonizava três diferentes frequências e entre chiadeiras, algumas estridentes, captava a locução britânica de um radialista da BBC. E aí…

Um baque forte e surdo em meio a um deslocamento de ar fez o garfo e a agulha correr sobre a superfície do disco. Vibrou a vidraça da porta de correr que separava a sala de estar da copa. Corri para fora de casa, encontrei no céu, no horizonte, entre o leste e o nordeste, no alto, bem no alto, alcançando uns 45 graus no céu, o resto de um cogumelo de fumaça e fuligem negra, que logo se desfez. Pude ler os pontos de interrogação sobre as cabeças dos que se entreolhavam. Paulo,meu primo, um pouco mais velho, mais autônomo, pegou a bicicleta, nem sei se contou para a Tia Uschi, e com seu amigo, o Mário, que há pouco havia vindo de São Paulo, voaram para a direção do estrondo, da fumaça, do cogumelo.

Aconteceu a uns quatro quilômetros de casa, onde o Ahú e o Cabral se encontravam, onde também se encontravam a Anita Garibaldi com a Via Rápida, na época recém criada e, de fato, rápida.

O relato de Paulo, em primeira mão, antes das notícias do jornal da noite produziu cenas de Segunda Guerra em minha imaginação. De algum jeito ele e seu amigo conseguiram se aproximar o suficiente para distinguir o que havia por trás da nuvem de poeira que se delongava em assentar.

“Uma quadra foi pro espaço! Sumiu do mapa. Ficaram só as fundações de algumas casas, o resto era pedaço de tijolo e concreto espalhado… E corre-corre, gente prá cá e prá lá.”

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Fonte: http://www.jws.com.br

De que me lembro, ao acompanhar as imagens e as explicações do jornalista (teria sido o Jamur Júnior, o Wiliam Sade, o Gilberto Fontoura?), um caminhão carregado de dinamite que seguia pela Via Rápida, sentido Centro, se perdeu numa curva e abraçou um poste. Houve tempo para o motorista pular fora da cabine e com sagacidade sair pelas redondezas, avisando para quem tivesse por perto se mandar, pois a carga era explosiva. Não deu outra: algum tempo depois – quanto tempo teria passado? – aquela dinamite toda explodiu.

A erosão do tempo desgastou parte da memória dos fatos daquela tarde, contudo, sob os escombros das lembranças, uma delas – daquelas lembranças que flutuam em pedaços de papéis rasgados e que derivam ao sabor dos ventos – me conta que houve vítimas fatais, uma ou talvez duas pessoas, não sei ao certo. De qualquer modo, um milagre em razão da intensidade da explosão, da dimensão que o acidente tomou.

Dias depois, lembro-me de ver, no local da explosão, uma quadra inteira cujos restos eram removidos até ficar um grande lote fanstasmagórico. Do outro lado avenida, um prédio (da Telepar, se não me engano) trazia muitos vidros partidos e o mesmo se verificava na fábrica de bolachas ao lado. Graciosa, creio. Não a fábrica em si, pois que como fábrica sua arquitetura estava longe de ser graciosa, mas a marca dos biscoitos.

Se as lembranças se confundem em meio à poeira, recorri a tal memória coletiva e eletrônica da rede. Conta o silício dos chips que isso se deu num tal 2 de setembro de 1976. Há, inclusive, um livro contando o fato: Dinamite – uma tragédia em Curitiba, escrito por Ana Carolina de Azevedo. O portal do jornalista José Wille traz interessantes detalhes desse acontecimento. Com esse recurso, corrijo duas informações imprecisas de minha memória. Foram três as vítimas fatais e a fábrica de biscoitos das cercanias do local da explosão era da Lucinda e não Graciosa.

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Numa miscelânea de acontecimentos que acabam por criar um caótico e ao mesmo tempo mítico mosaico em nossas cabeças infanto-juvenis, misturei o cogumelo da explosão do caminhão de dinamites do Ahú, com o poema do Vinicius – a Rosa de Hiroshima – musicado pelos Secos e Molhados e quem sabe à narrativa dramática de Walmor Chagas sobre as cenas ainda mais dramáticas das imagens em branco e preto do seriado da Globo, na época: O Mundo em Guerras. Se não foi tudo exatamente na mesma época, deixa estar, perdoe-me, pois que com o varrer do tempo na memória empoeirada, tudo isso se grudou.

Francisco Rehme (o Chicho)

É geógrafo, professor de Geografia do 6º ano do EF e da 3ª série do EM do Colégio Medianeira. Especialista em Geografia Física – Análise Ambiental pela UFPR e em Currículo e Prática Educativa (PUC-Rio), é mestre em Geografia, dentro da linha de pesquisa Dinâmicas das Paisagens (UFPR).
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