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Tarde fria de domingo em Curitiba, caminho para o local de votação.

Vila Oficinas: a modernidade da maior eleição digital do planeta contrasta com o caminho percorrido até aquele local.

Nas calçadas, papéis pisados pavimentam o piso rarefeito.

Senhorinhas cambaleantes equilibram-se em meio a buracos, raízes de árvores, barro e resíduos de variadas origens.

Tombos circenses e papéis esvoaçantes fazem-me sentir em um espetáculo grotesco. Chego a um colégio estadual onde, 2 anos atrás, repetira o momento democrático.

Dentro da escola, as mesmas paredes quebradas e o mesmo ambiente carcerário me fazem sentir sufocado e indignado.

Passo por salas de aula de 6º ano. Nas paredes, afixados cartazes com ensinamentos sobre letra cursiva ao lado de sorridentes personagens da Disney.

Nada, absolutamente nada, parece ter mudado.

Nos estreitos corredores cinza-chumbo, vejo, em meio à escuridão dos lustres pífios, a luz no fim do túnel: a porta da sala de aula que se abre como um portal pró-indignação.

Em fila, por 15 minutos, ouço no rádio do celular que o movimento Juventude em Ação recolheu, na madrugada que precedia o dia de votação, em torno de 30 sacos de 100 litros com santinhos de candidatos. Penso eu: certamente percorreram a cidade! Mas, não! Este foi o resultado de apenas 5 locais de votação.

Por fim adentro a cabina eleitoral. Pressiono as teclas da urna como quem pressiona os próprios candidatos que aparecem na tela.

Com requintes de crueldade faço surgir na tela a foto de quem jamais votaria e, em vez de apertar o botão verde, aperto corrigir. Por um momento, tenho a nítida impressão de ver o desespero no rosto do candidato tão sorridente poucos momentos antes. Como em um sonho, aquela figura desaparece de minha frente e tenho ali a opção de expor minha opinião e preencher o espaço em branco com as minhas cores: digito os números que desejo e pressiono o botão “confirma”. FIM.

Volto para casa.

Pela televisão, nas imagens gravadas pela manhã, vejo que, coincidentemente, nos mesmos bairros centrais de Curitiba, candidatos das mais variadas siglas votaram fazendo o “V” da vitória.

As calçadas? Pavimentadas com o resistente granito reluzente.

Sorriso nos rostos e sapatos polidos refletidos na pedra cintilante.

Nada, absolutamente nada, parece ter mudado.

Alessandro França Quadrado

É graduado em Letras (2008) e Arquitetura e Urbanismo (1997). É especialista em Línguas Estrangeiras Modernas e professor de Língua Inglesa há 20 anos. É ex-aluno do Colégio Medianeira e atual supervisor do Núcleo de Linguagens do Ensino Médio.
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