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Faz uns dias, tivemos a triste notícia da morte de João Donati, um jovem homossexual assassinado em Goiás. O crime está sendo investigado, mas existem possibilidades de ter sido causado por uma manifestação de ódio, de homofobia. No dia 19 de setembro, o jovem Hiago Jatobá foi assassinado em Curitiba, na Praça da Ucrânia. O crime está também sendo investigado, mas igualmente há indícios que se trate novamente de uma manifestação de ódio, só que por conotações ideológicas, uma vez que Hiago era um militante político.

Dois casos que, além de muito tristes, trágicos e inaceitáveis, infelizmente demonstram facetas do que vivemos na sociedade brasileira, nesse início de século: uma proliferação e banalização do ódio. Hoje, odiar é tão comum, que não basta mais ser sectário, é preciso ostentar suas ideias de exclusão. É preciso agredir o objeto de sua raiva, e da melhor forma tentar destruí-lo.

Exemplo maior e mais revoltante foi exibido no último debate entre os candidatos à presidência da República, quando um o representante do PRTB, Levy Fidelix, fez um lamentável e violento discurso homofóbico, que havia sido precedido por uma fala do mesmo candidato, defendendo a criminalização dos dependentes químicos no país. Um conjunto de preconceito, segregacionismo e ódio em estado puro.

E de onde vem tudo isso? Não acredito que tenhamos uma única resposta, mas sim uma combinação de fatores que leva ao fortalecimento desse fenômeno bizarro. Primeiramente, as minorias e os historicamente excluídos tem conseguido uma visibilidade muito maior. Na internet de forma geral, e nas redes sociais especificamente, existe uma multiplicidade de vozes. E hoje é possível ouvir o que têm a dizer as minorias e os excluídos, que sempre foram calados pela grande mídia, pelo monopólio da informação, insuperável até 10 ou 20 anos atrás.

Além disso, o resgate social de milhões de brasileiros que aconteceu nos últimos tempos, também serviu para incluir muitas pessoas ao mundo dos que consomem, dos que tem computador, vão à universidade, viajam de avião e, portanto, tem ao menos alguma visibilidade. A soma da inclusão com o aumento da visibilidade desses grupos despertou uma ira naqueles que nunca pensaram em ter que conviver “com esse tipo de gente”. O preconceito, antes comodamente camuflado, teve que se tornar evidente, pois o diferente não estava mais distante. Temos hoje que ouvir o que o ativista gay tem a falar. Temos que dividir o avião com o porteiro. Temos que estudar na mesma universidade que a filha da faxineira. Para alguns, isso significou perda de status social, motivo suficiente para iniciar sua semeadura do ódio.

Mas sem incentivo, esse ódio não teria condições de florescer, afinal odiar é algo humanamente censurável. Só é possível se aceitar e proliferar o ódio, quando ele passa a ser socialmente aceito. Daí o papel importante de alguns veículos de comunicação, e de alguns fundamentalismos religiosos. Apresentadores de telejornais fazendo apologia ao “bandido bom é bandido morto”, ou comentaristas destilando seu ódio pela aquisição de automóveis pelas classes populares, são apenas dois exemplos de um ódio bem difundido: o ódio de classe. Mas não é só isso. Parlamentares e líderes religiosos abertamente pregando a segregação homofóbica, também contribuem para essa amálgama da intolerância.

Em tempos de eleição, esse contexto fica ainda mais evidente. Se para angariar votos, é preciso destilar a intolerância ao outro, é exatamente isso que muitos candidatos e candidatas se propõem a fazer. E no meio social, os eleitores representam, muitas vezes, o terreno perfeito para a fertilização da intolerância. Seja a intolerância camuflada de liberdade de expressão, ou aquela escondida nos “valores” fundamentalistas.

Dizer que estamos cansados disso, e ficar somente no discurso sem ação, só piora a situação. A democracia cobra a nossa participação, e simplesmente voltar as costas para a política, não garante nenhum tipo de mudança. Ao contrário, fortalece as estruturas já existentes e viciadas. Fortalece o discurso fácil, superficial e intolerante. Portanto, se queremos ver a escalada do ódio ser barrada em nosso país, a democracia nos oferece as ferramentas para isso, mas elas não são de uso rápido e fácil. O voto é só o primeiro passo. Contudo, o mais importante está na real participação da vida política da República, seja por meio do engajamento partidário, dos movimentos sociais, sindicais, estudantis, de gênero, culturais, ou tantos outros que existem. Lutar é tarefa diária, e se posicionar contra a intolerância é princípio fundamental das bases civilizatórias. Hiago Jatobá, João Donati e tantos outros ainda permanecerão sendo exterminados, enquanto a apatia política, travestida de indignação inerte, for o comportamento da maioria dos cidadãos.

Luciana Podlasek

É graduada (Licenciatura e Bacharelado) em História pela UFPR, é professora desde 1996, tendo lecionado no Ensino Fundamental e no Médio. Trabalha há 7 anos no Colégio Medianeira.Leia outros artigos dele aqui.