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Não pude assistir o novo “Godzilla” no cinema, por vários motivos. Nesse último fim de semana, finalmente, vi ele em casa, junto com meu filho. Acabou o filme, eu disse: “Poxa, é o melhor filme que vi com você nos últimos tempos”. E ele, aos seus quase oito anos, “é o melhor filme que eu vi na minha vida”.

Antes de eu dizer o que disse, fiquei pensando por alguns segundos se a minha afirmação seria verdadeira – se eu tínhamos visto recentemente outro filme “novo” que eu tinha gostado tanto. Me veio à memória apenas o “Depois da terra”, mas isso foi nas férias de julho do ano passado. Portanto, eu não estava equivocado.

E quando ele disse o que disse, me fez ficar pensando. Consegui entender sua afirmação. Porque havíamos criado muita expectativa com esse filme, com indicação de dois amigos próximos e alimentação na base de seres fantásticos e versões anteriores do monstrão japonês. Tudo culminava para essa nova versão, que, eu esperava, fosse acima da média dos recentes “filmes familiares de destruição em massa”. Mas, enquanto assistíamos… Me dei conta que estávamos frente a um bicho realmente especial. Esse novo Godzilla é lindo, em todos os sentidos. O filme é impressionante e o monstro em si é de uma beleza comovente.

Um dos grandes méritos da obra é realmente MOSTRAR o bichão. A narrativa é conduzida pelo personagem de Joe Brody (Bryan Cranston) e em sua metade é assumida pelo filho, já adulto, Ford (Aaron Taylor-Johnson). Mas, tudo que acontece ali é por causa daquela inacreditável força da natureza que foi liberada; aquele monstro terrível que veio para, de alguma forma, reestabelecer o equilíbrio que nós humanos prejudicamos. Godzilla é o ser mais primitivo e colossal que já existiu. Ele está além de toda a evolução humana e os adjetivos jamais bastariam para dar conta da sua majestade. Para evidenciar isso, nada mais expressivo do que os rostos estupefatos de todos os personagens que se deparam com o Rei dos Monstros.

Gareth Edwards se mostra um grande diretor, que respeita o passado e que aprendeu com os grandes mestres. Sua ligação com Steven Spielberg se torna bem óbvia. Além de “Godzilla” ter uma estrutura narrativa semelhante a “Tubarão” (1975), Edwards lança mão de um procedimento bastante caro a Spielberg: closes de personagens embasbacados. Pois o cinema é arte da montagem e do olhar. Então, para evidenciar e valorizar mais ainda o monstro que o espectador quer tanto ver, primeiro há o rosto do personagem que se maravilha – de paixão, de deslumbre, de medo, de pavor – com aquilo que ainda não está ao alcance dos nossos olhos de espectadores. Além disso, o bom cineasta, o bom artista,  afinal, nos faz ver aquilo que tanto desejamos – e isso nos deleita mais ainda*.

Parece uma coisa tão simples e boba – isso de mostrar, de permitir ao espectador ver com clareza –, mas, que, se analisarmos, perceberemos como essa vontade nos é negada constantemente na maioria dos filmes. Muitas vezes por incompetência, falta de talento. Porque criar suspense, sugerir e omitir é mais fácil do que mostrar e evidenciar a beleza de algo.

Edwards nos mostra a besta suprema. Ela não é um ser humano, que se espanta e se impressiona facilmente. É um monstro gigantesco, que destrói prédios com a facilidade com que pisamos em formigas e nem percebemos. Edwards nos mostra em planos preciosos detalhes do monstro. Vemos seu corpo inteiro se movendo em meio à cidade, sua cauda derrubando arranha-céus, seus braços arremessando suas presas, sua luz arrancando a cabeça do inimigo… e, finalmente, seu olhar de dor e cansaço.

Mas também vemos o olhar da força, da superação e da vitória. Edwards não nos esconde nada. Pagamos o ingresso para ver a grande fera e ele nos dá isso com uma beleza exclusiva.

Poderíamos cair no outro lado – do grotesco explícito e abjeto – , mas não é o que temos aqui. “Godzilla” é um grande filme contemporâneo que não se esgota fácil em poucas palavras, seja para o analista estético ou de temas sociais (é possível dizer que Godzilla, em suma, é uma cria do ecologismo). Felizmente, é um filme que nos dá prazer em ver e que nos maravilha como crianças frente aos maiores monstros já imaginados.

Alexandre Rafael Garcia

É natural de Curitiba e trabalha com cinema. Formado pela Faculdade de Artes do Paraná, está concluindo o mestrado na Unicamp, é professor no Colégio Medianeira e sócio da produtora O Quadro, onde produz e dirige filmes.Leia outros artigos dele aqui.