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Estamos acostumados a abominar a “política” e a atribuir todos os problemas do mundo aos “políticos”. Não vou entrar no mérito de que somos seres políticos e nem vou me arriscar a conceituar política.

Mas, em tempo de eleições, há algo que me incomoda muito e tento então, neste post, concretizar o incômodo.

Tenho me perguntado se, de fato, queremos uma sociedade melhor e mais justa. E ainda pergunto: melhor e mais justa para quem? Digo isso porque se cada um de nós quiser uma sociedade mais justa para si e para os próximos (bem próximos), vai ficar difícil.

“Sou contra as ciclovias e faixas exclusivas de ônibus porque ando de carros e ambas tornam o trânsito (dos carros) mais lento. Sou contra as cotas nas universidades porque meus filhos estudam em escola privada e a concorrência para eles ficou mais difícil. Sou contra o bolsa família porque o programa atinge uma parte da população (na qual não me incluo) e creio que este tipo de política gera comodismo e as pessoas não ‘aprendem a pescar’, sou contra os direitos trabalhistas das empregadas domésticas, porque não consigo mais contratar uma.” Se você nunca ouviu nenhum destes discursos, caro leitor, creia-me, você é um privilegiado.

O prefeito de São Paulo disse um dia desses que “o paulistano cobra revolução, desde que não se mexa em nada”. Temo que este não seja um comportamento só do paulistano. Tenho certeza de que não é.

Acho que este é um bom momento para nos perguntarmos: do que de fato estou disposto a abrir mão para viver em sociedade? Porque gestão pública não é mágica e não é possível atender aos interesses de todos ao mesmo tempo. Tem candidato dizendo que é possível, mas isso é, em minha opinião, discurso eleitoreiro.

Votar é fazer opções. Mas não é como escolher um time de futebol, pois isso se faz com o coração, passionalmente. Ninguém precisa fazer um processo reflexivo para escolher um time. Vale gostar por gostar, torcer por torcer.

Numa eleição, não. Não é a escolha de uma pessoa ou de um partido, é a escolha de um projeto político. Neste caso, a responsabilidade de cada um fica imensa. Eu acredito que temos conquistas que são inegociáveis e deveríamos defender isso como sociedade, para que nenhum candidato tivesse coragem nem de pensar em retroceder. A diminuição da fome no país é um dos pontos inegociáveis, em minha opinião. O relatório da FAO, divulgado ontem, diz que o Brasil entra, a partir de agora, na lista dos países que superaram o problema da fome. Segundo matéria da Folha de São Paulo (leia aqui), para Ane Kepple, consultora da FAO, “o Brasil atingiu esse patamar devido a ‘dezenas de políticas articuladas’”. Entre estas políticas, ela cita o Bolsa Família, a construção de cisternas no Nordeste e o Programa Nacional de Alimentação Escolar.

Seria possível citar outros pontos inegociáveis na economia, na educação, na saúde, mas acredito que este ponto sirva como símbolo daquilo que quero discutir. Não há sociedade mais justa sem divisão de riquezas, não há sociedade melhor sem compromisso com os desfavorecidos, sem justiça social. Superar a fome é superar a maior das injustiças sociais, mas ainda há um longo caminho a percorrer. Não acredito que os políticos sejam todos iguais e nem que eles sejam o câncer do mundo. Viver em sociedade é viver com os outros e como sociedade, antes de eleger pessoas, temos que eleger projetos.  Castel explica melhor do que eu:

 

É preciso lembrar com firmeza que a proteção social não é somente a concessão de benefício em favor dos mais necessitados para evitar-lhes uma decadência total. No sentido forte da palavra, ela é para todos a condição básica para que possam continuar a pertencer a uma sociedade de semelhantes. Robert Castel in: A insegurança social – o que é ser protegido.

 

Juliana Heleno

Juliana Heleno é professora desde 1995. Trabalha no Colégio Medianeira desde 2005 e hoje é orientadora pedagógica da Educação Infantil e das séries iniciais do Ensino Fundamental (1º ao 3º ano). É graduada em Letras (UFPR), especialista em Leituras de Múltiplas Linguagens da Comunicação e da Arte (PUCPR) e Mestre em Educação (PUCPR).
Leia outros artigos dela aqui.