053-duas-na-tarde

Há cerca de uns três/quatro dias tomei conhecimento de uma polêmica que se passou em São Paulo há uns três anos: a ciclofaixa do bairro de Moema.

Pela repercussão dos últimos dias na internet, eu pensei que a coisa era nova, mas notícias aqui, aqui e aqui evidenciam que a coisa vem dando rebuliço há certo tempo.

Esse caso me trouxe algumas lembranças na cabeça…

Quando eu me mudei pra Holanda – cerca de sete anos atrás – e no meu primeiro passeio pela cidade em que morei, Leiden, eu vi uma série de pessoas de terno e gravata, vestidos longos e salto alto, passando por mim de bicicleta. Achei aquilo super estranho, afinal de contas, morava em Curitiba desde os 13 anos e a impressão que eu tinha era que bicicleta só servia para lazer (percebam, era a MINHA percepção, não significa que é verdade) e, convenhamos, quem se diverte de salto e gravata?

Segui o grupo e, para grande surpresa, essas pessoas chegavam a um casamento… Esse foi, de fato, meu primeiro choque cultural na terra das tulipas, moinhos e coffeshops. Como morei lá por dois anos, em pouco tempo estava andando pelas ruas de vestido e bicicleta, de bakfiets (nesse modelo aqui) e de salto alto. Naquele período a bicicleta, pra mim, deixou de ser associada ao lazer e percebi que esse modal de transporte pode e deve ser bem pensado.

Bom, isso tudo há sete anos…

No começo desse ano, por vontade minha e influência da Ana Luz (que também escreve aqui no blog), comecei a utilizar a bicicleta de novo, agora como transporte para o trabalho. Desde o início do ano letivo não houve cólica, temperatura de 0°C às 6h45 ou chuva que me fizesse pedir carona ao Buturi (houve ocasiões, claro, mas foram situações pontuais)…

Andando de bicicleta em Curitiba há pouco tempo, percebo que muita gente aqui é como a comerciante do bairro de Moema em São Paulo. Incontáveis foram as vezes que o motorista “brincou” que ia jogar o carro em cima de mim… Incontáveis foram as vezes em que eu, na preferencial, tive que parar para não ser atropelada… Incontáveis foram as vezes que motoqueiros passaram e xingaram, bem como os motoristas de ônibus… Em número de “1” eu consegui contar: um atropelamento e um motorista de uma Kombi que disse que eu, uma ‘puta’ (*ainda preciso escrever um texto sobre palavrões), deveria tirar aquela merda do caminho…

Bicicleta descongestiona, é limpo, ocupa 6% do espaço de uma pessoa que utiliza o carro e, sem contar, melhora o humor já que a serotonina é liberada durante o exercício (em alguns momentos, adrenalina também, é verdade)… E para provar, que é possível usar saia e/ou salto alto, libero pra vocês um tumblr inaugurado no dia 12/09/2014: “Ciclistas Milionárias”.

Eu espero que você, leitor ou leitora, não sejam uma das pessoas “incontáveis” que listei acima e, caso tenha sido, não peço desculpa pelo eventual palavrão que eu tenha lhe dirigido. Mas espero, de verdade, que você pare de pensar em uma cidade voltada aos carros, porque o futuro que nos aguarda no trânsito não é animador.

Boas pedaladas!

*Se você acha que a cidade deve se desenvolver pensando nos carros, assista esse documentário de 25 minutos: “Entre Rios – a urbanização de São Paulo” e pense nos possíveis paralelos entre São Paulo e Curitiba (mas pense além da associação Rio Pinheiros – Rio Belém)

*Texto dedicado a todos os ciclistas do colégio, mas especialmente ao pai da Helliza, do 8ºD.

Rafaela Pacheco Dalbem

É formada em Geografia pela UFPR e mestre em Geografia Física e Ordenamento do Território, pela Universidade de Coimbra – Portugal. É professora do 8º ano do Ensino Fundamental e 1º ano do Ensino Médio, no Colégio Medianeira.
Leia outros artigos dela aqui.