Dança vida
Ai de quem não te acompanhar
Dançar até que a noite recolha
Nossa sombra
Sonha
Sonho
Ai de quem não te aproveitar
Dormir até que o dia recolha
Nossa sina

(Artur Andrade)

Vídeo Youtube

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Foto de Ruth Orkin

Eram duas as meninas, duas mulheres, duas senhoras, duas senhorinhas. Uma desfiava histórias de outros tempos, como se fosse um tricô amarrotado, que escapa da agulha a cada volta. A memória já não era mais a mesma. Outra media as ideias e se calava, olhar ao longe, como se não tivesse a quem dirigir palavra. E assim se fez o hábito do silêncio, diluindo o tempo nas areias que ficaram para trás.

Amargar lembranças do mal vivido e arrependimento do não vivido era a teia que as enredava. Uma sonhava o mundo lá fora e calava por dentro, outra calava o mundo de fora e se sonhava por dentro.

Mãos entrelaçadas pelo medo da morte, seguiam as duas pelos corredores da existência. Tinham uma à outra, tinham uma história em comum de mesmo pai e mesma mãe. Uma teve filhos, a outra não. Agora esperavam o desfecho, aquecendo a pele ressecada ao sol de mais um inverno. A primavera chegaria mais uma vez?

Essa era a dúvida de sempre. Uma teria tempo de ver os filhos e netos? Outra poderia ainda fazer uma visita às pedras que guardavam seu falecido marido?

Uma cuidava da outra. Uma regava as plantas, outra ria das próprias dores. Uma acordava cedo para ouvir os passarinhos, outra praguejava contra eles, esses pestes barulhentos.

E assim seguia-se a vida em mais um bocado de momentos pra tecer história. Toda vida gera histórias, mesmo as que pareçam mais insignificantes. E as histórias devem ser contadas para fazer sentido, precisam ecoar para adquirir algum convencimento de que foram válidas. Precisam seguir ao sabor do vento e dos tempos que se contam em dias, meses e anos, passados, presentes, futuros. Quanto mais um tempo cresce o outro diminui. Só o presente é sempre do mesmo tamanho, e está sempre aí, comendo o futuro e virando poeira e lembrança.

Uma distração do guardião do agora e… pronto!  As duas meninas correm leves, pelos campos floridos da infância, vestidos estufados pelo vento quente da primavera daqueles tempos que teimam nas retinas desfocadas de ambas. A voz da mãe chamando para dentro de casa, que já anoitecia. E a voz da mãe já anoiteceu no sono que tarda, mas não falha. O cheiro do café retorna às narinas para trazer a mãe de volta por um instante e depois se evaporar com as nuvens que formam figuras no céu.

E o que vem agora? Surpresas dos três tempos misturados nesse caldo denso do conflito que move a vida humana: como nela entrar e como dela sair? Não somos preparados para envelhecer e morrer, e essa é a ordem natural das coisas. A ordem natural das coisas é naturalmente aprender a viver, aprender como fazer quando a fragilidade infantil vai embora para dar vez ao adulto e mais tarde volta ao corpo em versão dolorida e com uma mala cheia de episódios de vida.

É preciso dar ouvidos a uma e à outra. É preciso estender o braço sempre para que o passarinho trêmulo pouse em segurança. É preciso reconhecer-lhes os saberes, ouvir sua histórias, dar importância às memórias que precisam se repetir como uma herança de quem não sabe até quando fica por aqui, de quem vive em condição de espera e tem consciência dessa espera.

Por isso deixo com vocês essa metáfora de extremos que se tocam e dão o tom da música que dançamos tempo afora. Deixo por aqui também os versos de Cora Coralina, de como uma delas viu essa dança. E a outra? A outra espera para te contar essa mesma história, mesmo que sem palavras.

Assim eu vejo a vida

A vida tem duas faces:
Positiva e negativa
O passado foi duro
mas deixou o seu legado
Saber viver é a grande sabedoria
Que eu possa dignificar
Minha condição de mulher,
Aceitar suas limitações
E me fazer pedra de segurança
dos valores que vão desmoronando.
Nasci em tempos rudes
Aceitei contradições
lutas e pedras
como lições de vida
e delas me sirvo
Aprendi a viver.

Cora Coralina

Martinha Vieira

Foi professora de Língua Portuguesa do Colégio Medianeira por 20 anos e atualmente é responsável pelo Departamento de Arte. É formada em Letras – Português (UFPR), pós-graduada em Prática Educativa (PUCRJ) e em Produção da Arte e Gestão da Cultura (PUCPR).Leia outros artigos dele aqui.