051-defesa-da-melancolia4

No último sábado, enquanto organizava meus livros e minhas roupas, coloquei o vinil Songs of Love and Hate, do Leonard Cohen, para animar a tarde ensolarada.

Sim, usei mesmo o verbo “animar” nessa última sentença. Pensando no título do álbum Canções de Amor e Ódio, e por se tratar do velho bardo canadense, você pode supor que a utilização de tal verbo é um paradoxo. Mas não é. Vou explicar a seguir.

Numa das vezes que abri a porta, minha irmã, com sua contumaz reclamação dos decibéis (nem tão intensos assim), perguntou como eu conseguia ouvir toda aquela tristeza. Sim. De fato, não é um dos discos mais alegres já gravados. Contei pra ela, inclusive, uma pequena curiosidade sobre a música “Dress Rehearsal Rag”, que tocava no momento:

Em 1967, numa gravação da BBC Recordings, ele comenta, antes de executá-la, que havia banido esta canção de suas apresentações, tocando-a apenas em raras ocasiões em que a alegria era predominante. Ele apenas tocava essa canção quando sabia que o ambiente suportaria o panorama de desespero criado por ela.

051-defesa-da-melancolia3

Eles prenderam um homem
que queria dominar o mundo.
Os tolos
Eles prenderam o homem errado

Isso é apenas para situá-lo, caro leitor. A melancolia, entre as várias definições do dicionário Houaiss, pode ser considerada como um “sentimento de vaga e doce tristeza que compraz e favorece o devaneio e a meditação”. Com a morte de Robin Williams, no último mês, veio à tona a questão da depressão, um mal que assola cerca de 350 milhões de pessoas no mundo. Mas a melancolia a que me refiro é essa “vaga e doce tristeza” e, tentando responder minha irmã e explicar algo aqui, devo dizer que não é porque você ouve músicas ditas tristes que necessariamente você está triste, deprimido ou de coração partido. Quando me reunia com os alunos do Ensino Médio no Projeto Leituras, eu tentava explicar que essa certa tristeza – propícia para uma autorreflexão ou simplesmente como momento de regozijo frente às coisas boas que acontecem – bem, tentava explicar a eles que esse sentimento, no meu caso, não é nada mais do que, paradoxalmente, uma espécie de esperança. Não a esperança das coisas que estão ruins, mas porque você está tão bem consigo que é extremamente prazeroso ouvir as histórias de amor que deram certo e errado nos dedilhados tristes e na voz grave e deprimida de Leonard Cohen.

Você pode argumentar: já que você está tão de bem consigo, por que, raios, não ouve coisas alegres? E a resposta é: há alegria abundante na melancolia. É preciso, contudo, uma certa disposição de espírito para poder contemplar a beleza e a alegria contidas na tristeza. Talvez isso se aplique perfeitamente a mim porque, em geral, não sou um cara alto astral. E não vejo problemas em viver assim, considerando sempre um copo meio vazio. Independente do modo como se veja o copo, por outro lado, é bom lembrar que sempre é possível enchê-lo novamente.

Segue uma lista com algumas dessas canções. Experimente-as:

Diego Zerwes

É publicitário (UP) e Especialista em Literatura Brasileira e História Nacional (UTFPR). Trabalha na Comunicação do Colégio Medianeira. É tradutor (diletante) da vasta obra musical de Leonard Cohen, publicada periodicamente no Traduzindo Leonard Cohen.
Leia outros artigos dele aqui.