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O outro. A culpa é sempre dele. Ele não cumpre os prazos porque é desorganizado, é  passado para trás por ser bobo, não trabalha devido à preguiça e por me julgar é um intolerante. Diferente de mim, não cumpri o prazo porque não me ajudaram, o excesso de ingenuidade me fez ser passado para trás e o tempo ruim que não me permitiu ir trabalhar. Logo a culpa não é minha.

A facilidade em atirar a primeira pedra é simultânea às desculpas e justificativas criadas para o próprio umbigo. Basta navegar alguns minutos em alguma rede social para observar a enxurrada de bons samaritanos julgando o outro, geralmente o desconhecido ou diferente. Ame ou odeie. Idolatre ou ridicularize. A polarização radical de opiniões esvazia a possibilidade de diálogo ou compreensão do diferente. Ficar em cima do muro, local que sempre gostei de permanecer para poder observar, ouvir, concordar ou discordar dos argumentos de ambos os lados, tornou-se alvo de chacota. No entanto, diante de umbigos polarizados e donos da razão, que tentam a qualquer custo lhe empurrar suas verdades, em cima do muro é onde desejo estar.

O intolerante também é um cego sobre sua própria identidade e efemeridade. Me faz coçar a cabeça quando o rapaz, comendo salgadinhos, estirado sobre o sofá, diante da televisão há 8 horas, sem maiores perspectivas profissionais ou intelectuais, tece comentários fervorosos de raiva sobre o piloto de Fórmula 1 que chegou em sexto lugar, do artilheiro que perdeu o pênalti no estádio lotado, do comentarista político de opinião contrária à sua etc. Pera aí, eles estão lá! Provavelmente, foram corajosos, percorreram um caminho sinuoso para estarem naquela posição de tão fácil julgamento por quem está apenas estirado no sofá de casa.

A questão não é sobre meritocracia, mas da necessidade de reconhecer o outro e compreender o que te faz diferente dele. Só existe a individualidade a partir do momento em que há um coletivo, já que o sujeito tem sua identidade constituída a partir das relações traçadas com o outro. Buscar saber um pouco sobre a vida de quem está à sua volta ajuda a não atirar a primeira pedra. Começar pelo vizinho, descobrindo o nome dele, pode ser uma boa. Uma coisa é o vizinho chato do andar de cima que, há duas semanas, tem feito barulho ao caminhar pelo apartamento durante as madrugadas. No entanto, outra coisa é saber que o Flávio, morador do andar de cima, tem passado por noites difíceis porque perdeu a esposa num acidente de carro há duas semanas.

Portanto. Conhecer a história do outro pode ser um primeiro passo para diminuir a intolerância e o culto do próprio umbigo.

Um abraço,

Vinícius Soares Pinto

É responsável pela Educação Digital e a Comunicação do Colégio Medianeira. É formado em Publicidade e Propaganda (UP), especialista em Comunicação, Cultura e Arte (PUCPR) e Cinema (TUIUTI). Leia outros artigos dele aqui.