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Quando um papel de bala se destaca em um largo corredor é porque a limpeza ao seu redor é o que predomina. O dono da mão que largou o papel, não se sabe. Sabemos da Lourdes, da Dirvete, da Celia, da Viviana, que de pronto eliminam as evidências. Como zelam, as zeladoras.

Diariamente, a Ivone e a Eva recolhem mais que esses pequenos papéis. Hoje, numa passada de olho por dois corredores contei treze embalagens no chão e cinco lixeiras, já alimentadas, mas não saciadas. “Ô, Porcão! Volta’qui”.

Durante o intervalo do Ensino Médio, acontece a sessão de vídeo denominada Cinema de Passagem. Pufes são colocados, luzes diminuídas, projeção e som regulados. (Neste momento, rever a imagem que acompanha o texto). Nem os assentos se safam. Andando pelo colégio nos primeiros minutos após os alunos voltarem para as salas, posso dizer o que foi que lancharam. Mas se demoro um pouco, puxa vida, perco essa oportunidade (nunca única), pois veio a Claudineia e a Renata puxando o carro, a Adriana, a Geise e a Damares levantando poeira e já não há bolinhas de guardanapo de papel que foram deixadas no chão depois de uma divertida guerra de bolinhas de guardanapo de papel.

No dia seguinte, tão limpas estão as dependências do colégio, por força da Ilza, Neideli, Ivonete, Luci, que o dono da mão que largou o papel de bala já não pode sequer se lembrar dele. Então, mais uma bala pra ser despida e ter a roupinha jogada em qualquer canto. Amanhã, como mágica, estará dobrada na lixeira do meio.

Daniele, Elaine, Eva. Carina, Irene, Ivani. Quanto pesa um papel de bala por dia?

Você, nós, das mãos que libertam embrulhos gerais, sabemos quem são Girlene, Iloni, Maria? Tereza, Terezinha, Raimunda?

O protagonismo está no papel? Está neste texto, na ilustração, no problema, na cultura? É individual, coletivo, grande, pequeno? A embalagem hoje é a casca de ontem? É incentivo camuflado ou falta de incentivo o que acontece com a mão frouxa, que não aguenta com o peso do papel de bala?

Mas estou insistindo no invólucro da pastilha, na ação da mão. Quando, na atual situação, é a Derli, a Ester, a Jorgina, que merecem destaque. O que salta aos olhos, mais que os recicláveis que se espalham por aí, é o zelo virando perfume até nos banheiros. A Cristina, neste momento, despeja água e passa o rodo. Nadja, sei que agora tem uma lupa para as letras miúdas dos estudos. Carmen, socorrista de mão cheia. Marilia, no violão. Um pessoal e tanto. Raquel, Thais, Regina, Louisena, Joselaine. Verdade que, quando pensei neste texto, tive como pensamento inicial a vontade de expor a relação que observo entre pessoas e o que elas descartam, e me incluo nessa, mas durante a escrita cresceu a vontade mesmo de agradecer as moças.

Bruno Ruiz

Bruno Ruiz é acadêmico de licenciatura em Artes Visuais na Faculdade de Artes do Paraná (FAP) e trabalha no setor Audiovisual do Colégio Medianeira.
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