048---os-brutos-tambem-amam

Há dias em que a luz do sol, tão rara em Curitiba, desperta as retinas para a cena ainda não vista e o olho alcança detalhes perdidos na fluidez do cotidiano, deixando-nos perceber, absorver, refletir. A cena foi num domingo de sol. Foi no terminal de ônibus perto de casa. Sim, sou uma pessoa que utiliza o coletivo mesmo nos finais de semana. Não tenho carro, não dirijo e não tenho marido pra me levar de carro a lugar algum. Em ambos os casos de “não tenho” não é nenhuma queixa, e sim opção. Voltando à cena, o que vi foi gente saindo impunemente a passeio naquele domingo de sol. Se você pensou que eu ia relatar um crime, uma cena grotesca ou violenta, errou. Pois o que me pôs a pensar foi que reconheci naquelas pessoas o ar da novidade, de quem não tem o hábito de sair descontraidamente. Eram rostos marcados pelo sofrimento da pobreza e da fome, tomando outros ares, de quem está transpondo os maiores problemas e sobra um tempinho e um dinheirinho pra passear num domingo de sol.

Havia, naquele terminal de ônibus, mais do que um domingo comum, além do sol, raro em Curitiba. Havia olhares recuperando o brilho em namoradinhos abraçados (“eles podiam estar roubando, matando”, mas estavam ali, abraçados ao calor do sol e do diesel queimado dos motores dos biarticulados). Desfrutavam o seu domingo, amando e passeando, para retornar ao trabalho mais leves na segunda. Sim, agora eles têm trabalho.

Havia algo além da redução da tarifa de ônibus aos domingos. Havia algo além dos tantos carros enfurecidos por não encontrarem vaga de estacionamento nos shoppings. Havia gente nova pelas ruas, gente diferente, alguns deles ousando a entrada no shopping, causando alvoroço no pessoal da segurança e nos odiosos de plantão, anti qualquer forma de ascensão das classes historicamente jogadas abaixo da linha da miséria. Pessoas que passavam seus domingos na mais abandonada periferia, à margem de algum córrego podre e montanhas de lixo, agora saem passear aos domingos, além do seu habitat distante.

Pessoas que nunca precisaram tomar um ônibus, ou que não precisam mais dele, já que também ascenderam socialmente, e agora têm seu veículo, não estão acostumadas a ver pessoas de classes mais pobres desfrutando a vida, mesmo que timidamente. Algumas pessoas odeiam isso. Na minha lógica, não consigo entender o porquê de tantas dessas pessoas odiarem outras que passaram a ter pão na mesa e uma passagem de ônibus aos domingos. Por que a mínima dignidade de uns causa tanta revolta em outros, já que todos são pessoas?

Estamos aqui entre o amor e o ódio. O amor dos brutos, não refinados pelas maravilhas do consumo, pelo conforto da “civilização”, não acostumados a isso, mas que também amam, e querem viver. O embrutecimento pelo revés da vida, no seu estado de não ser, de se esvair e desaparecer, suprime o estado maior do ser humano, que o torna capaz de querer sinceramente o bem do outro. Se tirarmos tudo de um ser humano ele pode tender ao ódio. Se dermos ao ser humano muito mais do que tudo de que precisa ele também pode tender ao ódio. Sem necessidade de explicações, não é?

Sem mais nada a perder, o ser humano vai à guerra; com excesso a defender, o outro ser humano também vai à guerra. E se não se vê no lugar do outro sempre se achará certo no que faz. Guimarães Rosa, em seu Grande Sertão: Veredas, entre sangue e poeira daqueles que vão à guerra por não ter mais nada a perder, conta a história do bruto sertanejo Riobaldo, que revela a intensa capacidade de amor, de qualquer amor, em todas as formas e sem medidas. Entre reflexões sobre a existência, entre o bem e o mal, Deus e o Diabo, enreda os fios do amor e do ódio capazes de se tramar na existência humana e, na trama de ambos, um deve prevalecer. Eis o conflito humano na voz de Riobaldo: “Só se pode viver perto de outro, e conhecer outra pessoa, sem o perigo do ódio, se a gente tem amor. Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura.” E é só disso que precisamos pra viver, um pouquinho mais de saúde.

Foi apenas uma reflexão antiga que me fez dizer palavra. E o que nessa vida me faz dizer palavra é ela, a própria vida, feita principalmente nesses três formatos: literatura, música e cenas cotidianas que calam na alma e um dia pedem pra tomar sol e dar o ar de sua graça… e viram palavras para voar por aí.

A Literatura inspiradora está aí, a cena também está aí, e a música está aqui (do Lenine, inspirada na fala de Riobaldo, citada no texto: “Amor é pra quem ama” – “…amor matéria-prima, a chama, o sumo, o tema…”. “Amor é pra quem vive”.

Martinha Vieira

Foi professora de Língua Portuguesa do Colégio Medianeira por 20 anos e atualmente é responsável pelo Departamento de Arte. É formada em Letras – Português (UFPR), pós-graduada em Prática Educativa (PUCRJ) e em Produção da Arte e Gestão da Cultura (PUCPR).Leia outros artigos dele aqui.