047-imagens-w

Imagens arrombam as nossas portas todos os dias. E mesmo aqueles que, como eu, não têm televisão sofrem direta e, indiretamente, com esse arrombamento imagético todos os dias, através da ótica feroz dos meios de comunicação. Chega-se a tolerar o intolerável em nome da informação, ou desinformação, que, na grande maioria das vezes, não chega a virar conhecimento ou uma mínima reflexão sobre o que se está transmitindo. A invenção da sociedade de troca de informação/comunicação chamada Facebook presenteou-me dia desses com essa imagem – a Branca de Neve fazendo um selfie, um pouco acima do peso de quando a conhecemos no cinema, aquela bela jovem de vestidos esvoaçantes cercada de pequenos homenzinhos prontos a servi-la em um oásis verde. Aqui, ela aparece sozinha diante do espelho com um Iphone e alguns quilos a mais. Ela está estranha e diferente do que eu, e você, estamos acostumados a ver.

Como foi enunciado por diversos sociólogos, desde Levi-Strauss ao mais contemporâneo, Zigmunt Bauman, os estranhos exalam incerteza onde a certeza e a clareza deviam ter imperado. Nesta guerra entre o estranho e o normal, duas estratégias alternativas, mas também complementares, são intermitentemente desenvolvidas. Uma é a antropofágica: aniquilação dos estranhos devorando-os e depois, metabolicamente, transformando-os num tecido indistinguível do que já havia. Era essa a estratégia: tornar a diferença semelhante; abafar as distinções culturais; proibir todas as tradições; promover e reforçar uma medida, e só uma, para a conformidade. A outra estratégia era a antropoêmica: vomitar os estranhos, bani-los dos limites do mundo ordeiro. Essa era a estratégia da exclusão, ‘purificar’ – expulsar os estranhos para além das fronteiras do território administrável; ou, quando nenhuma das duas medidas fosse factível, destruí-los fisicamente.

Ora, para alguém que estuda a Arte por meio da ótica da Cultura Visual, tal imagem aparecer assim, escancarada e gratuita, é um prato cheio, capaz de inúmeras análises. Ainda que possa servir como parâmetro para muitas outras metáforas engajadas, e outras nem tanto, também nos serve de referência para analisarmos o contexto de imagens que nos cercam e que fazem parte da nossa Cultura Visual. A Branca de Neve é uma personagem conhecida por todos nós que temos mais de 30 anos, pode ser que muitos jovens não a conheçam, pois ela representa uma fase do cinema Disney nas quais as fábulas e contos de fadas eram encenados de forma associada à Arte e a Literatura. Hoje, pelo menos, muito do que vemos sair dos estúdios Disney é associado ao entretenimento e a produção de heróis e princesas modernas.

Branca de Neve é uma recriação dos irmãos Grimm, uma fábula compilada entre os anos 1812 e 1822, e faz parte de um conto da oralidade alemã. Mas a Branca de Neve moderna engordou, como a maioria da população do mundo ocidental; envelheceu, como qualquer ser humano, divorciou-se do príncipe encantado e, foi para Miami comprar um Iphone, em 7 parcelas fixas no cartão de crédito, como a maioria dos seres humanos ocidentais faz, endivida-se. Essas são as ideias preliminares que eu tenho quando vejo esta imagem. É o que eu posso falar sobre ela e só posso falar isso sob a minha própria ótica. Associo o que eu conheço, de quando assisti a Branca de Neve pela primeira vez, ao que observo agora, quando me deparo com esta imagem. É assim que opera a Cultura Visual, traz à tona o repertório de referências visuais para realizar paralelismos com as referências de imagem que nos chegam atualizadas, produzidas na contemporaneidade. Por isso não faz sentido ‘ensinar’ a uma criança peruana, do interior do país, por exemplo, o que é o Renascimento, ela não opera estas referências como uma criança que nasceu e viveu em Roma. Talvez ela possa relacionar com alguma imagem do seu repertório, mas não fará nenhum significado se for ensinado somente como história da Arte ou história das imagens. Mas a mim foi ensinado o mundo maravilhoso da Disney e, como muitas meninas da minha geração (eu nunca fui à Disney), até cheguei a reproduzir muita coisa do que aprendi. Mas chegou um momento que isso não fazia parte do meu repertório e, então, mudar o paradigma conceitual foi mais difícil, porque não fui ensinada a isso. Fui ensinada a reproduzir e, como os meus professores de Arte na escola queriam que eu fizesse na década de 80 e 90, pouco criei nesta época.

É! As coisas no mundo da fantasia, das fábulas e dos contos de fadas também mudam, é a sociedade pós-moderna reclamando o seu preço a todos aqueles que ousam viver o aqui e o agora, conectados ou não. O mal-estar é generalizado quando nos deparamos com tal imagem, ou não? Onde foi parar a bela mocinha de cabelos negros e pele alva com seus fiéis eunucos? Provavelmente todos eles estejam em similar situação. Talvez. Façamos um exercício de imaginação, pois é disso que se trata…

Soneca tornou-se bancário e passa o dia atrás de um balcão, contanto dinheiros dos outros, esperando ansioso pelas cinco horas da tarde, eventualmente um choppinho no bar mais próximo, e casa, para no dia seguinte começar tudo outra vez.

Dengoso é professor de danças latinas, formou-se em educação física e trabalha como personal trainer nas horas vagas, tem um físico invejável. Ele e Branca de Neve tiveram uma grande discussão há algum tempo quando ele foi indelicado com ela e já não se falam mais.

Feliz foi fazer um retiro de yoga no Himalaia e por lá ficou. Agora é adepto do Budismo e não tem celular, whatsapp e Facebook. Completamente isolado nas montanhas, vive como um ermitão. Nunca mais foi visto, imagina-se que segue Feliz!

Atchim morreu recentemente, coitado. Sempre foi hipocondríaco. Ninguém sabe a causa exata da sua morte, mas sabemos que já havia algum tempo que estava internado na UTI em algum hospital público da baixada Fluminense, no Rio de Janeiro.

Mestre se formou em Ciências Sociais em Harvard e leciona Antropologia Holística na Universidade de Columbia, nos Estados Unidos. Recentemente publicou um estudo sobre comunidades nômades na Islândia e descobriu alguns antepassados ali. Está em crise com a academia, não sabe se continua nos Estados Unidos ou se muda para a Reykjavík. Como muita gente, sofre de bipolaridade, mas está medicado.

Zangado e Dunga casaram-se. Saíram de férias pela Grécia e descobriram o amor em um verão. Os dois vivem em Barcelona e abriram um bar de Tapas. Pretendem adotar um casal de chinesinhos assim que o visto de permanência ficar pronto.

Devaneios à parte, nem mesmo os irmãos Grimm poderiam imaginar tal desfecho para os seus personagens. Afinal, todos cumpriram o seu destino – incontrolável destino -, personificado por eles mesmos. Uma vez saídos do cinema e colocados na vida real, cada qual encarnou sua verdadeira identidade e, Branca de Neve, por que não?, também. Nós, que a conhecemos de um jeito diferente, precisamos trabalhar a nossa própria frustração e aceitarmos tal como ela é hoje. Ela pode ou não estar feliz e satisfeita com a sua nova condição de plebeia. Cabe a ela definir o seu destino. Assim é a Cultura Visual e por isso é tão apaixonante como disciplina. Ela ensina, entre outras coisas, que uma imagem nunca diz nada, somos nós, sujeitos dotados de pensamento e linguagem, que podemos, quase sempre, dizer algo sobre ela.

Ana Paula Luz

É sempre-aluna do Colégio Medianeira e atual professora da Oficina de Artes Visuais e da disciplina de Arte do 8º ano do Ensino Fundamental. Formada em Belas Artes (FAP) e especialista em História da Arte (EMBAP), é ainda mestre e doutora em Arte e Educação pela Universidade de Barcelona.
Leia outros artigos dela aqui.