046-vozes-que-habitam

Meu, minha; teu, tua. Privado, propriedade. Posse, domínio… Palavras encarnadas e assumidas no vocabulário presente, segunda natureza da mulher/homem contemporâneo. Pergunto-me, que tipo de arqueologia daria conta de traçar fios discursivos que nos levassem a alguns fundamentos da ideia do “privado”?

Difícil a resposta (impossível). Buscar uma origem bíblica que passaria do sumo bem, Deus, à “queda” da criação que desejando tornar-se tal como o Criador, foi lançada à própria sorte tendo que, doravante, alimentar-se de si mesma; não mais possuindo a consciência espelhada entre o que se é e o que se pensa, passaria o circuito do “nada ao ser” e do “ser ao nada” buscando-se a si mesma de modo desesperado, possuindo-se na ilusão de um dia se ter.

Inquirir nos gregos, o ser e as diversas manifestações; nos medievais, a verdade do ser, revelada. O ser, grosso modo, pode ser nomeado, mas não possuído. E nomeando-se é que se conhece. Conhecer não seria também uma forma de “possuir”? Enfim, podemos voltar nosso olhar sobre as teorias modernas, liberal, marxista e, no presente, o “neoliberalismo de Estado” e veremos alguns a favor, outros contra a “Posse”. E o ser, onde fica?

Com a ideia da posse caminha o espectro da desigualdade; não basta possuir, há que se possuir de diferentes modos. Recordo-me sempre do impacto que teve um cubano, cuja formação intelectual e cultural foi realizada em Cuba e na antiga União Soviética. Dizia ele, ao fazer compras no supermercado: “Não compreendo por que as pessoas inventam tantas embalagens de arroz! Não é arroz? Então, para que tanta maquiagem? ”. Porque não basta comprar o arroz, devemos nos diferenciar na compra. Não é assim? E, infelizmente, a coisa não para por aí: valorizamos e propagamos a ideia de que o indivíduo A que compra o arroz tipo Z é muito melhor que o indivíduo B que, infelizmente, só pôde comprar o arroz Y.

Damos tapinhas nas costas do A: “Parabéns pela compra”, “Excelente aquisição”, “Cara, nem te reconheci com esse pacote belíssimo de arroz nas mãos. Caramba, você melhorou de vida”… E assim caminhamos, humanidade, a propagar elogios ao melhor arroz e ao MELHOR comprador, a nos iludir, cotidianamente, que o arroz que compramos nos torna melhores que o nosso vizinho: “Ah! O mundo se desmorona, mas ainda posso comprar o meu arroz…”.

Ilusão? Fetiche? Vontade de “ser mais”? Vários nomes… Um deles nós chamamos de empreendedorismo empresarial. Nome pomposo, forte, extenso e para uma parte significativa do mundo, de difícil pronúncia. Divisor de águas!

Divide-se o mundo em dois grupos: os empreendedores e os não empreendedores. Enquanto o primeiro é o grupo dos bem sucedidos, cujo carma maior é o sucesso, o segundo grupo é o dos fracassados (criativo, não?), entregue às intempéries do verbo. As subdivisões poderiam continuar ad infinitum, demasiado cansativo.

Quais as fronteiras da palavra? Muitas. Elas se comunicam, se transformam, se abrem e se constituem em seus discursos. A palavra tem voz, pode ser compreendida. Mas, nesse mundo de “posses”, como se abrir para o que o outro é, mas não possui? Essas vozes habitam lugares específicos, localizados no mapa, mesmo que não “descritos” como locais de “empreendedores”. São vozes enraizadas em um mundo pouco lido e visitado pelos “empreendedores” ou, quando visitado, o é apenas como uma possibilidade real de uma fatia a mais no mercado. Alguns chamam de periferia, outros de favela, já outros o nomeiam de “mundo real”. E aqueles que habitam o mundo real, como nomeiam a sua própria condição? sofrimento. esquecimento. luta. dor. entrega. Enquanto isso, viajantes de um outro mundo, nos preparamos para empreender a compra do nosso bom e velho arroz, sempre ele a nos conduzir rumo ao sentido desconexo do ser que há muito se perdeu…

Mayco Delavy

É formado em Filosofia (FAJE – Faculdade Jesuíta, BH, MG), especialista em Ética (PUCPR) e mestrando em Filosofia (PUCPR). Já trabalhou com apenados (2006/07) na Pastoral Carcerária e no Comitê de Direitos Humanos em João Pessoa (PB) e Belo Horizonte (MG). Atualmente, trabalha no Serviço de Orientação Pedagógica de 8º e 9º anos, no Colégio Medianeira. Leia outros artigos dele aqui.