045-dez-anos-depois

Era agosto de 2004. O corpo havia sobrevivido, não sem percalços, ao ano e meio de tratamento quimioterápico, ao quase autotransplante de medula óssea, e às sessões de radioterapia. O cabelo, a barba e os pelos prenunciavam o reinício da normalidade, o finalzinho do inverno e o início da nova estação.

Era o fim de um ciclo iniciado aproximadamente 2 anos antes, com um emagrecimento de mais de 10 kg, tosses quase ininterruptas, perda de apetite e sudorese noturna. Era como sentir o corpo perdendo a força, curvando-se diante de algo incompreensível até então.

Consultas a homeopatas, pneumologistas, clínicos gerais, simpatias de tia e coisas do tipo. Após 4 meses, 3 diagnósticos de faringite, 2 de bronquite crônica, 1 de problemas hormonais e outro de lipoma, sem contar os muitos “não se preocupe” e batidas nas costas, chegava-se ao diagnóstico verdadeiro.

Diante de uma ecografia seguida de biópsia, o oncologista informa: “você tem um nódulo de 6 centímetros de diâmetro e alguns outros menores a partir da axila esquerda em direção à fossa supra-clavicular do mesmo lado. Trata-se de uma neoplasia do sistema linfático, chamada Hodgkin, que pode ser tratada via quimioterapia e radioterapia.”

Diante dos sintomas um tanto perturbadores naqueles últimos meses, tanto o diagnóstico de um profissional altamente confiável, como a notícia de um tratamento com possibilidades de cura chegavam como um grande alívio. Nada disto soava como uma sentença de morte aos 27 anos de idade.

Sentimentos aflorados, familiares preocupados, vida de recém-casado. Envolvimento de todos.

A opção de postergar um pouco o tratamento foi considerada. Mas iniciar tão logo quanto possível foi prudente antes que se desistisse de enfrentar tudo.

Já na primeira sessão de quimioterapia, a grande surpresa: vários sintomas eram cessados, e já se podia sentir parte do nódulo na axila esquerda se dissipar.

Porém, alguns problemas com baixa imunidade, decorrente do tratamento, impediram que se pudesse seguir rigorosamente o protocolo previsto. Ao final de quase um ano, nova biópsia e exames de imagem deixavam claro que o problema ainda persistia.

Você deverá passar por um processo de autotransplante de medula óssea que requer primeiramente momentos de internamento e recuperação menores para, ao final, passarmos pelo processo em si, com maior período de permanência e isolamento em hospital.”

Licença do trabalho, comoção familiar e uma certeza menor de que tudo poderia dar certo. Mas… como saber o final de um livro lido pela primeira vez, sem lê-lo até a última letra?

Quinzenas intercaladas de tratamentos e longos dias no hospital. Transfusões de plaquetas, injeções para recuperação do número de leucócitos, brigas com plano de saúde, muitos e muitos antibióticos depois, a notícia inesperada chega:

Vamos fazer uma biópsia da massa residual. Após o tratamento recente, há a possibilidade de que a doença não esteja mais ativa.

Novo internamento.

No leito ao lado, um senhor de idade. Olhos grandes que parecem ver, em meio à névoa que sai do respirador, seu próprio destino. A angústia me toma o peito e um certo medo do nada também. Os enfermeiros chegam e lá vou eu novamente: sala de cirurgia. A depilação pré-cirúrgica habitual já não é mais necessária diante da devastação do tratamento.

A consciência se vai com as horas de cirurgia.

Algum tempo depois de retomar os sentidos, o médico dá a notícia que me faz perceber que tudo chegava próximo ao fim.

Parte de seus nódulos foram retirados e, em uma pré-análise, você não tem mais doença ativa”.

Choro, felicidade, confiança…

Notícia confirmada alguns dias depois quando recebia do laboratório o resultado da nova biópsia: negativo.

Não será mais necessário o autotransplante de medula óssea! Você apenas passará por um tratamento radioterápico para consolidar sua situação.

* * *

Um mês depois: agosto de 2004. O solstício de inverno já havia passado e os dias iam ficando mais longos, assim como a vida…

Três anos depois: julho de 2007. A vida não contente em ser uma só, multiplica-se. Uma filha: linda como a materialização de um milagre nos próprios braços.

Dez anos depois: agosto de 2014. O percurso da vida mudou. Os ideais e alguns valores também. Certezas abaladas. Verdades relativas. Valor ao estritamente essencial.

* * *

Última Estrela a desaparecer antes do dia,
Pouso no teu trémulo azular branco os meus olhos calmos,
E vejo-te independentemente de mim,
Alegre pela vitória que tenho em poder ver-te
Sem “estado de alma” nenhum, salvo ver-te.
A tua beleza para mim está em existires.
A tua grandeza está em existires inteiramente fora de mim.

Fernando Pessoa (Alberto Caeiro)

Alessandro França Quadrado

É graduado em Letras (2008) e Arquitetura e Urbanismo (1997). É especialista em Línguas Estrangeiras Modernas e professor de Língua Inglesa há 20 anos. É ex-aluno do Colégio Medianeira e atual supervisor do Núcleo de Linguagens do Ensino Médio.
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