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Visita dos alunos em 2013. Foto: Paulinha Kozlowski.

No dia primeiro de agosto, acompanhei a visita de alguns alunos do 9º ano ao Assentamento do Contestado, que fica na região da Lapa/PR. Essa aula de campo faz parte da proposta do trabalho de pesquisa do núcleo de História, Geografia e Ensino Religioso, que tem como tema central o estudo dos movimentos sociais no Brasil.

Qual é a intenção desse tema para o trabalho de pesquisa? Por que estudar a atuação de grupos como o MST e o MTST nos dias de hoje? Não estaríamos colaborando com uma visão muito extremista ao tocar nesses assuntos do ponto de vista dos integrantes dos movimentos? Muitas desses questionamentos nos são feitos todos os anos e, apesar de compreendermos a preocupação e o direito de quem questiona em fazê-lo, sempre me pergunto por que tanta resistência em estudar os mecanismos de luta de muitos grupos excluídos socialmente por séculos em nosso país.

Existe uma concentração fundiária secular no Brasil, e ela prejudica o desenvolvimento do campo, principalmente para os mais pobres. Redistribuir a terra, torná-la produtiva, fazer com que essa produção tenha uma preocupação ambiental e atingir um grande número de pessoas, por meio da agricultura familiar, são iniciativas fundamentais para democratizar o acesso à terra e à produção digna, além de reduzir a pobreza. Então me pergunto, por que a sociedade é tão tolerante com as práticas do latifúndio e tão crítica, quando não sectária, diante da atuação dos camponeses organizados? Muitos podem dizer que as organizações desses grupos, como a Via Campesina, o MST, o MAB, são oportunistas, pois retiram terras de quem comprou, e as entregam para indivíduos que não querem trabalhar. Essa visão é muito equivocada e preconceituosa. As terras destinadas para fim de reforma agrária são regiões em litígio, pois têm pendências que vão desde dívidas enormes com o pagamento de seus impostos, grilagem, até a prática de trabalho escravo. Se o proprietário não cumpre a lei, se tem coragem de escravizar pessoas para trabalhar em suas terras, não é justo que tenha questionado seu direito àquela propriedade? Lembrando sempre que não se trata de pura e simples desapropriação, pois corre um processo junto ao INCRA e à justiça, onde o latifundiário terá oportunidades para apresentar seus argumentos e, caso perca o processo, receberá uma indenização.

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Visita dos alunos em 2013. Foto: Paulinha Kozlowski.

O que os movimentos sociais fazem, tanto no campo, como na cidade, é pressionar o governo, através de ocupações nas áreas em litígio (seja por não cumprirem a lei, ou por não cumprirem sua função social), para que as mudanças ocorram. A História nos mostra que, sem pressão popular, as transformações não acontecem.

É óbvio que dentro desses movimentos existem pessoas oportunistas e desonestas. Mas esse tipo de gente não existe em todo lugar? Entre os donos do latifúndio, nas grandes corporações, também não vemos todos os dias práticas pautadas na desonestidade e no desrespeito às leis? Por que então a cobrança e as críticas ferrenhas só ocorrem unilateralmente?

Quando vemos as tristes e constantes cenas de violência no campo, quase nunca temos notícia de assassinatos de grandes proprietários. Por outro lado, lideranças indígenas e dos movimentos pela reforma agrária constantemente são eliminados, com o claro objetivo de calar suas vozes. Por que isso é tão bem aceito pela maioria das pessoas? Por que não nos indignamos com toda essa violência? Será que é porque fomos ensinados a sempre defender os interesses dominantes?

Não pretendo aqui disseminar uma visão romantizada dos movimentos sociais. Eles são feitos por pessoas comuns, que têm suas virtudes e falhas. E, mais que isso, são organizações inseridas dentro de um contexto social, político, econômico e cultural, que pautará muitas de suas ações. Acertos e erros fazem parte dessa trajetória. Portanto, o que apenas gostaria de chamar a atenção é para a visão elitista disseminada em nosso país, que nega o direito de existência desses grupos, não reconhecendo a legitimidade das suas reivindicações e não enxergando que, ao fazer isso, também impõe a exclusão para milhares de brasileiros pobres e miseráveis.

A partir do momento em que relativizamos algumas ideias que nos foram passadas como verdades, e nos abrimos ao debate, podemos enxergar um outro lado da História. Não que necessariamente sejamos obrigados a concordar com essa outra visão, mas podemos apenas nos dar a chance de conhecê-la. Ouvir o outro, que sempre nos foi apresentado de forma talvez distorcida pelos telejornais, e ver como é sua vida, saber de suas propostas, compreender suas aspirações. Esse é um dos caminhos da democracia, e pode ser também um dos caminhos para a criação de um país justo e digno para todos os brasileiros.

Luciana Podlasek

É graduada (Licenciatura e Bacharelado) em História pela UFPR, é professora desde 1996, tendo lecionado no Ensino Fundamental e no Médio. Trabalha há 7 anos no Colégio Medianeira.Leia outros artigos dela aqui.