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Sou pai há oito anos e isso sempre tem sido empolgante, sempre de uma maneira nova e diferente. Cada época tem suas particularidades, suas dificuldades e seus prazeres.

É a aventura do crescimento. E sentir-se parte integrante e realizadora disso é das maiores satisfações na vida.

Acredito que nos educamos com tudo que vemos à nossa volta, com tudo que vivemos. Por isso é tão difícil e desafiador ter uma pequena pessoa ao seu lado, tão suscetível: você sabe que influencia ela nos mínimos comportamentos, conscientemente ou não.

São oito anos que vivo pensando diariamente quais os valores que quero transmitir ao meu filho. Quais as experiências que quero promover a ele. Ou seja: quais filmes quero que ele veja.

Os anos passam. Já vimos juntos coisas que eu não teria visto se não fosse com meu filho – de Backyardigans a Apenas um show; de Como treinar seu dragão a Kiriku e Meu vizinho Totoro.

Eu ficava na expectativa de quando veríamos juntos filmes que eu sozinho gostaria de ver. O tempo foi passando e nesses últimos anos vimos ET, Star wars, Jurassic park, Indiana Jones, Depois da terra, Akira, Godzilla, Charlie Chaplin, Buster Keaton… e, esses dias, O Ataque dos vermes malditos.

Meu filho, como qualquer criança, tem curiosidade sobre monstros e seres absurdos. Enfrentar o medo e o nojo, acredito, faz parte do nosso crescimento. E também acredito que seja nossa função como pais sermos curadores da programação audiovisual de nossos filhos. Não é questão de autoritarismo, mas de pensar sobre o que gostaríamos de compartilhar com eles; de valores morais a experiências estéticas (coisas que podem andar juntas).

É puro exercício crítico selecionar o que queremos que nossos filhos assistam – e assistir com eles. Cada faixa etária, cada criança, tem suas características e alguns filmes são mais adequados que outros. Muitas vezes acontece o “desserviço” de apresentar um bom filme em um contexto inadequado e “queimar” este filme e/ou prejudicar a própria criança.

A mim, pouco interessa o formalismo. O moralismo não me interessa nada. Por isso busco filmes que conjuguem tanto um interesse moral quanto estético.

O Ataque dos vermes malditos é um grande filme. Marcou minha infância e acredito que vá marcar a do meu filho também.

São tempos diferentes, com filmes diferentes, mas os vermes malditos são mais saudáveis e interessantes que a onda recente de filmes de super-heróis, onde cidades inteiras são destruídas sistematicamente por computação gráfica, ninguém se machuca realmente, nem nada é destruído de fato, o espectador mal consegue fixar seus olhos em alguma imagem, há intermináveis piadinhas (o cinismo e o gracejo publicitário imperam), as relações são superficiais e o que resta… é a inocuidade.

Esperamos que a escola dê boa educação para nossos filhos, mas não cuidamos do que nossos filhos assistem em casa?

Como diziam, “a educação vem de casa”. É bom pensar em nossas dietas alimentares e culturais. Assim como somos aquilo que comemos, somos aquilo que assistimos.

Meu ponto é: desconfie do que os pequenos assistem – sozinhos ou com você.

Alexandre Rafael Garcia

É natural de Curitiba e trabalha com cinema. Formado pela Faculdade de Artes do Paraná, está concluindo o mestrado na Unicamp, é professor de Cinema e Fotografia no Colégio Medianeira e sócio da produtora O Quadro, onde produz e dirige filmes. Leia outros artigos dele aqui.