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Pois que sofro de uma coceirice nas memórias, que desando a falar do Marumbi, das montanhas, das estações cravadinhas nas margens da ferrovia e do trem, serpenteando prá cá e prá lá. Tracatá, tracatá, tracatá pelas emendas dos trilhos, graxa escarrada nos tirantes e os vagões divididos entre fumo de óleo diesel e a gritaiada de criança e adulto toda vez que o trem sem cerimônia atravessa os túneis.

E essas coisas ficam me cutucando a cabeça basta que eu mire pras bandas do nascente, nesses fins de tarde azulado de inverno, sem nuvens e sem sinal de chuvarada. Lá é a serra, toda espichada de uma ponta a outra. É certo: tá na hora de ir pro mato, tá na hora de subir o Abrolhos, o Ponta do Tigre. O Olimpo… será que ainda dá?

As experiências que a gente teve quando criança – isso é conhecido, as coisas todas que vimos, os gostos doces e amargos, as assombrações e os gozos, os cheiros e as cores – correm risco certeiro de serem depreciadas quando as revisitamos, depois de feito gente grande. Ainda que dito isso, alguns nomes que carregam na alma das suas palavras de letras plasmadas as imagens do que encarnam, são de salivar a boca. Por conta do que disse, não sei quero mesmo revê-los ou passo de olhos vendados, pra não tirar o encanto.

Ah… a velha estação – lá na praça Eufrásio Correia – o comboio passava pela Ponte Preta e os carros lá embaixo, na João Negrão, fuscas, kombis, vemaguetes, decavês, raros esplanadas, itamaratis então, nem se fala. Bem mais adiante vem Piraquara, mais de meia-hora depois, de modo que já são sete e meia e certamente o frio, mais do que o cobrador, não deixa ficar na plataforma do vagão. Os vagões se enchem de quem perdeu o trem em Curitiba e o alcançou de ônibus que apanhou no pulo lá na Igreja do Guadalupe. Depois de Piraquara vem o São Roque. Esse nome mais me angustia. É por conta do sanatório, pois ficava imaginando os doentes lá internados, não os via de dentro do trem, só os imaginava. Aí a coisa é um pouco confusa, mistura com a história que acho que era o Floradas na Serra, da Dinah Silveira de Queirós. Li naqueles tempos, lemos todos juntos no quinto bê, orientado pelo Padre Otaviano, o professor de português. De modo que então não era só gramática, sintaxe, regras de acentuação e orações subordinadas… Tinha também literatura. Lucília, acho que foi o primeiro amor e a dor de muitos de nós. Tuberculose.

Roça Nova, depois da estação o grande túnel, do lado daquele que foi começado e não terminou. Depois tem o Banhado, ô estaçãozinha cheio de histórias. Umas verdadeiras outras nem tanto. O bolinho de borracha ou de graxa que se vendia no balcão da estação. Não dava para subir o pico sem mordê-lo, esticá-lo e se tivesse sorte, despedaçá-lo para seguir goela abaixo. Lá fora, a fonte, que não esguichava água, mas que tinha um ilustre morador: o jacaré. Todo calouro do Marumbi era assim batizado pelas águas da fonte do jacaré, na hora que ia espiá-lo.

O jacaré, que espécie era, que tamanho tinha, era brabo ou manso? Não sei, ninguém sabe, ninguém viu.

Aí chegava o trecho de fazer cair o queixo. Era ficar com a cabeça nas janelas do vagão, mas não dava pra botar o pescoção para fora que um adulto já nos puxava e dava um safanão. Olhava-se para um lado, aí num pulo, já se estava do outro lado do vagão porque as belezas se revezavam e às vezes se competiam, com os olhos embrenhados na mata, caçando a cascata do Véu da Noiva ou sumindo na garganta em busca do Salto dos Infernos do Vale do Ipiranga. Muito mato, muito cheiro agridoce e capim respirando ao sol.

A Ponte São João, outra mistura de sensações: beleza, admiração pela obra, respeito pelos que a construíram, mãos, suor e sangue escravos, e aí a paulada: sempre tinha uma história de gente que caía da ponte ou que dela se jogava. O rio São João, de leito sortido de pedras e de margens abertas, definitivamente em abraço de morte o recebia dezenas de metros lá embaixo. O trem inevitavelmente parava. O socorro descia para resgatar o corpo. Era sempre assim.

Na curva, uma das últimas antes do trem parar no Marumbi, o Viaduto Carvalho era a primeira experiência de voar que as crianças e muitos adultos tinham. Era quando o trem parecia estar no ar, com aquele peso todo, ferro gemendo no trilho, mas parecia que se estava no céu e o vale todo verde e aveludado lá embaixo, apenas um risco mais forte, o Nhundiaquara e mais adiante o borrãozinho de Morretes que o rio dividia. Isso era o que a gente, por muito tempo, conhecia como vista aérea. E a gente ficava pensando o que será que não viam os cosmonautas que naqueles tempos estavam desvirginando a lua, aquela turma da NASA e das apolos. Ainda mais a gente, esses rehmes, que se consideravam os legítimos primos do astronauta. Do Charles Conrad, o muito bem humorado comandante da Apolo 12.

Cabeça no mundo da lua, o trem freava esgoelando-se, lascando metal, guinchando a poucos metros da próxima estação, anunciada pelo aviso orgulhoso do funcionário da RFFSA: ¨Marumbi… Marumbi, pessoal!”. Era um tal de se agitar, arrumar nas costas a mochila pesada, de lona meio úmida, invariavelmente verde e desbotada, um tanto fedida, nem tanto, e corre, por que o trem não espera tanto tempo e tem muita gente pra descer.

Daqui a pouco a turma estava em marcha, na trilha, perto do rio Taquaral, escondendo parte da carga da mochila nos buracos das árvores pra não levar tanto peso inútil lá pra cima, pro cume. Encher os cantis com a água gelada do rio rumorejante, respirar fundo, afinal onde se tinha tanto ar daquele jeito, tão cheiroso, tão puro… Preenchiam-se os pulmões…

E a cabeça de lembranças…

que não nos abandonam.

Não tem jeito.

Francisco Rehme (o Chicho)

É geógrafo, professor de Geografia do 6º ano do EF e da 3ª série do EM do Colégio Medianeira. Especialista em Geografia Física – Análise Ambiental pela UFPR e em Currículo e Prática Educativa (PUC-Rio), é mestre em Geografia, dentro da linha de pesquisa Dinâmicas das Paisagens (UFPR).
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