Ou, o monólogo das armas contraposto às falas dos corações

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Em Gaza, o sombrio dia vinte de julho de 2014 ficou marcado como o domingo mais sangrento, desde a Guerra dos Seis Dias e a ocupação dos territórios palestinos por Israel, em 1967.

Do lado palestino, vive-se uma ocupação militar que já dura quarenta e sete anos e é, em si, a fonte da violência e, conforme os tratados internacionais, de violação dos direitos humanos. Só no dia vinte, morreram entre sessenta e cem palestinos e os feridos ultrapassam quatro centenas, sendo a maioria deles civis, velhos, mulheres e crianças. Alguns dados anteriores da ONU oferecem um vislumbre desse sofrimento. Cerca de 60.000 crianças passaram a necessitar de atendimento psiquiátrico, desde o começo das hostilidades em julho de 2014, e igual número representa o total de desabrigados e deslocados internos. Trata-se de uma população já constituída em sua maioria por refugiados de guerra, que vivem em um território cercado, praticamente sem água, esgoto e luz, mantido nas mínimas condições possíveis de remédios e alimentação para evitar uma catástrofe humanitária. Até a pesca é restrita em milhas náuticas e brinquedos e alimentos comuns, como tomate e chocolate, enfrentam barreiras para entrar. Esses dados revelam algo fundamental: as mortes majoritariamente de civis em Gaza e o bloqueio de bens inofensivos indicam um desrespeito total aos direitos humanos, humanitários e internacionais da parte dos atuais governos israelenses, passiveis de serem acusados de crimes de guerra e contra a humanidade. A desproporcionalidade das baixas, feridos e destruição é absurda, o que corrobora o fato de ser um massacre e não uma guerra.

Do lado israelense, conforme os mesmos dados da ONU e veículos de comunicação, em apenas um dia treze militares morreram e outros ficaram feridos, deixando suas famílias arrasadas. Não há bandeira sobre cadáver que console uma mãe nessa situação, muito menos um pequeno ou uma pequena. Tombaram em combate, achando que defendiam seu povo, quando apenas cumpriam ordens de um governo indigno de suas vidas, que independentemente do que diga só almeja manter a ocupação. Não sofrem somente essas famílias. O Hamas tem o direito de resistir à ocupação israelense pela via armada, conforme a resolução da Assembleia Geral da ONU, 3246 (XXIX) de 29 de novembro de 1974. Mas, esse movimento de libertação palestino abusa dessa prerrogativa ao disparar foguetes indiscriminados contra Israel, que felizmente consegue os interceptar em sua imensa maioria, ou eles caem em terrenos vazios. Mesmo assim, os disparos tem espalhado pânico entre a população, que ao escutar os alarmes correm para abrigos ou são, ainda que em pequena proporção, atingidas por destroços. Graças aos céus, somente um civil e um militar morreram dessa forma. Há também sofrimento psíquico, sobretudo no sul de Israel, mas, felizmente, em proporções muito menores se compararmos com Gaza, afinal duas dessas cidades gemendo simultaneamente seria o fim de nossa humanidade. Apesar dessa disparidade, cinicamente, o governo de extrema-direita de Israel tenta iludir sua população e a opinião pública, justificando a matança e a destruição como autodefesa para se perpetuar no poder, assim dando continuidade à ocupação e colonização, fontes primordiais da violência.

Muito longe desses eventos e em uma terra que infelizmente ainda oprime negros, indígenas, mulheres, gays e pobres, ocorreu uma situação diametralmente oposta, no mesmo vinte de julho de 2014. A ensolarada Curitiba testemunhou brasileiros e pessoas de outras nacionalidades, muçulmanas, judias e cristãs, darem-se as mãos e bradarem em uníssono: – Paz e chega de massacre! Seres esses que, pela lógica da barbárie, deveriam se opor, mas se negaram a continuar demonizando o outro e a encontrar justificativas para provocar a morte alheia. Ou seja, ainda que involuntariamente, a tempestade humanamente provocada que arrasa Gaza e a reduz a um pântano de escombros e cadáveres provocou, em um lugar muito distante, o desabrochar de uma linda flor de lótus ou insuflou nos corações uma centelha de esperança.

Essa intrépida e longínqua união mostrou que, o diálogo é possível. Ainda mais se considerarmos que, a condição imposta pelo Hamas para reconhecer Israel e a solução dos dois Estados é que a ocupação seja encerrada e haja uma solução justa para os refugiados palestinos de 1948. A humanidade aguarda assim o surgimento de um novo Ytzhak Rabin para concretizar a paz dos bravos e justos com o parceiro que, pacientemente, o aguarda há anos na mesa de negociações: Mahmud Abbas. Este líder, em cuja face está estampada a serenidade e a sabedoria, juntamente com sua contraparte a ser enviada pelos profetas de Israel há de libertar palestinos, ocupados e oprimidos, e israelenses, que partilham dos mesmos anseios: paz e segurança. Aqueles que teimam em se opor pela via das armas, mais cedo ou mais tarde, perecerão ou descobrirão que a paz constrói aquilo a guerra destrói. Cabe lembrar e homenagear aqui, dois homens, que inspiram essa reflexão e estão acima de quaisquer adjetivos para descrevê-los. Nelson Mandela, ao optar pela via armada nos anos 1960, decidiu que enfatizaria a sabotagem, pois ações que vitimassem brancos somente agravariam as diferenças e perpetuariam o apartheid. Mahatma Gandhi, ao brindar a humanidade com o caminho da não violência, serviu de exemplo para compreendermos que, o palestino ocupado e colonizado precisa libertar o colonizador para se ver livre também, e não o fará pela via das armas.

Devo finalizar, confessando que continua sendo muito melancólico chegar em minha casa e saber que, o massacre continua, agora também afetando famílias de militares israelenses, tombados pelas mãos de guerrilheiros palestinos devido a uma iniciativa odiosa de seu desumano governo, que teima em ocupar e matar. A angústia volta, e com ela a tristeza e a cabeça que tende a ficar constantemente voltada ao chão, como sinal de vergonha e luto. Afinal, não são só civis palestinos que estão morrendo às centenas, mas a cada bomba lançada sobre Gaza morre um pouco o que há de humano em nós. Há tempos estamos testemunhando um novo holocausto, muito mais lento e menos massivo, às vezes até silencioso, porém igualmente atroz.?

Fábio Bacila

É professor do Colégio Medianeira e historiador na ONG Grupo Tortura Nunca Mais. Tem dois livros e alguns artigos publicados sobre Oriente Médio e Ditadura brasileira.
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