eu_me_importo

Vivemos uma mudança de época. Isso já não é mais novidade pra ninguém. Chegando aos 40 anos, no entanto, posso dizer que sinto na pele tais mudanças e não estou aqui, caro leitor, falando de algumas rugas ou pés de galinhas. Falo na verdade do modo ser e estar no mundo.
Nasci e cresci no mundo dos meios de comunicação de massa. Sou da geração televisão. Era pelo prisma da telinha que “sabíamos” das coisas do mundo. Olhar limitado, podemos pensar, e é verdade. Sabíamos aquilo que a grande mídia decidia ser relevante que soubéssemos e a partir do ponto de vista “deles”.

As mídias pós-massivas, e com elas as redes sociais, dilaceraram este modelo. Temos oportunidade diária de ler e ver o ponto e o contraponto, sabemos de muita coisa para as quais a televisão não deu nenhuma importância. Maravilha!

Porém, isso é mais complexo do que parece. É um bombardeio diário de informações, muitas inúteis, mas muitas importantíssimas, com as quais me solidarizo, pelas quais me sinto responsável: cidadania planetária. Mas tenho a impressão que por mais importantes que sejam, me escapam, escorrem, são líquidas. Antes que eu me aprofunde, me engaje, passam.

Então fico me perguntando: com o que me importo? Respondo, me importo com muita coisa: com a prisão arbitrária de Fábio Hideki em São Paulo, com as prisões de manifestantes no Rio, com o massacre na Palestina por Israel (com apoio dos Estados Unidos), com o avião abatido na Ucrânia, com as eleições no Brasil… Percebam que não citei a Copa, os xingamentos da elite paulistana à presidente na abertura, o rapaz acorrentado a um poste no Rio, o caso Amarildo (o pedreiro “desaparecido” após abordagem policial) , o caso Claudia Ferreira (a mulher arrastada pela PM), os haitianos que continuam chegando ao Brasil em busca de uma nova vida etc.

O fato é que tenho medo de que ao me importar com muita coisa, de fato esteja agindo como quem não se importa com nada. É preciso encontrar caminhos para ser mais do que espectador neste mundo. Corremos o risco de que o excesso banalize tudo e que nos leve à passividade diante de tudo. Tenho a impressão de que nos falta profundidade.

Às vezes penso que o caminho é pensar global e agir local, mas não sei se isso não é comodismo meu pra voltar correndo pro meu mundinho. Sinto vertigens.

Juliana Heleno

Juliana Heleno é professora desde 1995. Trabalha no Colégio Medianeira desde 2005 e hoje é orientadora pedagógica da Educação Infantil e das séries iniciais do Ensino Fundamental (1º ao 3º ano). É graduada em Letras (UFPR), especialista em Leituras de Múltiplas Linguagens da Comunicação e da Arte (PUCPR) e Mestre em Educação (PUCPR).
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