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Ilustração de Sofia Moutinho

É claro que o ser humano que nasce dentro de qualquer comunidade já vai adquirir uma cultura. Com raríssimas exceções (e O enigma de Kaspar Hauser está aí para discutir o assunto), todo mundo nasce mergulhado no tal caldo cultural que o ajudou a gestar. Chamar alguém de inculto, portanto, é um jeito muitas vezes preconceituoso de se referir a alguém. No entanto, existe uma cultura que não é adquirida, vamos dizer, “automaticamente”. Ela requer uma aproximação voluntária (às vezes dirigida, e aqui penso no papel da escola) dos diversos bens culturais que se nos oferecem ou que precisamos descobrir. Estamos falando de filmes, de livros, de visitas a exposições, espetáculos de música, dança e teatro, palestras, sejam dentro do mundo físico ou do ciberespaço. Esse contato com modos diferentes de entender o mundo e a nós mesmos enriquece a experiência e certamente nos torna menos dogmáticos e fundamentalistas, mais propensos a entender as vicissitudes do ser humano e do entorno que ele tece a cada dia.

Abaixo, algumas dicas que podem ser úteis para um contato mais intenso com os principais objetos culturais à nossa disposição (a cada dia de acesso mais fácil):

- Fuja um pouco dos chamados blockbusters, aqueles filmes que são campeões de bilheteria e têm uma forma às vezes muito parecida de ver o mundo, dividindo-o em mocinhos e vilões. Nas locadoras, visite o cinema de outros países. É certo que o cinema americano produz muitas coisas boas, mas você verá que filmes excelentes de outros países podem agregar riqueza e diversão a um só tempo;

- Nas livrarias, experimente sair daquilo que se escancara nas vitrines. Na maioria das vezes, esses são espaços pagos pelas grandes editoras para venderem seus “produtos” como se fossem mero objeto de consumo e descarte. Particularmente, desconfio da ideia de que ler qualquer coisa é melhor do que não ler nada, mas sei que sou minoria. Que tal conhecer jornais literários, que podem dar uma boa noção do que tem sido publicado na literatura nacional e mundial?

- Nas exposições de arte, tente entender a lógica do artista. Um pouco de modéstia é sempre bom antes de dizer que até o seu cachorro pintaria daquele jeito. Ao mesmo tempo, não se sinta constrangido ao dizer que não gostou de algo. Mas só vale dizer que não gostou depois de tentar ao menos um pouco entender a proposta forma/conteúdo do objeto de arte. Isso vale para tudo, diga-se de passagem;

- Que tal conhecer um pouco mais sobre o mundo da ciência? Apesar de poucas publicações, existem excelentes livros de divulgação científica para “não iniciados”, que são o melhor modo de entendermos como a ciência explica os grandes fenômenos da natureza, desde sua dimensão microscópica até a astronômica. Uma obra espetacular para essa iniciação é A magia da realidade, do biólogo Richard Dawkins;

- Hoje em dia é muito fácil descobrir músicas de todas as partes do mundo, com suas sonoridades tão particulares e também como elas conversam com os ritmos do mainstream. Aplicativos como o Spotify, mesmo em sua versão gratuita, permitem descobrir uma infinidade de músicas diferentes, além das tradicionais;

- Você ouve podcasts? Eis uma maneira muito prática de ouvir opiniões diversificadas e divertidas sobre assuntos que podem te interessar. Você baixa episódios com assuntos relevantes para você (arte, ciência, política, religião etc) e ouve quando quiser no rádio do carro, no telefone celular, no computador.

Escrevi de um jeito bem simplificado, pensando alto em algumas formas que utilizo para entrar em contato com o chamado mundo da cultura, das culturas. Gosto muito de descobrir outras possibilidades. Por favor, ajude a deixar este post maior, mandando ver aí nos comentários.

Um abraço.

Cezar Tridapalli

É coordenador de Midiaeducação no Colégio Medianeira. Formado em Letras (UFPR), especialista em Leitura de Múltiplas Linguagens (PUCPR) e mestre em Estudos Literários (UFPR), é também escritor, autor dos romances Pequena Biografia de Desejos (7Letras) e O beijo de Schiller (Arte&Letra), vencedor do Prêmio Minas Gerais de Literatura 2013. cezartridapalli.com.br.
Leia outros artigos dele aqui.