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O exílio destrói, mas se resistires a ele, a prova lhe fará mais forte

Zigmunt Bauman in Vida Líquida

As férias e o dolce far niente diante do sofá proporcionam excelentes alternativas para além da programação clichê das televisões. Ótima oportunidade para atualizar o catálogo da locadora. Sim, ainda sou uma cliente assídua a consumidora voraz de locadoras, talvez pela inabilidade completa em saber “baixar” filmes pela internet ou, talvez, pelo prazer em sair de casa, vasculhar as prateleiras da locadora e trocar uma ideia com o dono que, sabiamente, tem dicas de filmes estranhos e igualmente encantadores.

Foi em uma noite dessas que me deparei com dois filmes estranhamente maravilhosos. Assistir a esses dois filmes recentemente me fez chegar à mesma conclusão: a sensibilidade de algumas pessoas faz com que estas se tornem apaixonantes.

O filme japonês Rent-a-Cat (2011), do diretor Naoko Ogigami, possui a intensa leveza das películas asiáticas, combinada a matizes de uma excelente fotografia. Drama e risos na mesma medida. O teor intenso está presente, mas envolto em uma nuvem de algodão-doce. Sayoko, a doce e frágil protagonista, é uma jovem que habita uma casa cheia de gatos em uma grande cidade japonesa, mas está sempre sozinha, ou melhor, sem a presença de humanos. É numa das primeiras cenas do filme que ela confessa a si:

- Quisera atrair não somente gatos, mas também gente.

Ela monta um negócio de aluguel de gatos para toda a gente que se sente sozinha. Então, Sayoko sai pelas ruas de sua cidade oferecendo e alugando os seus gatos a preços bastante módicos, mas sempre regressa para a sua casa só. Essa é a sua condição, essa é a sua solidão.

Por outro lado, o filme francês A Delicadeza (La Délicatesse, 2011), dos diretores David Foenkinos e Stéphane Foenkinos, é uma história protagonizada por Audrey Tautou no papel de Nathalie e se desenvolve em torno a uma grande perda afetiva, depois a dor, a apatia diante da vida, a dúvida e o redescobrimento do amor. A receita parece mais a um dramalhão mexicano, mas visto que os franceses não são chegados a isso, o filme acontece em uma atmosfera suave, sutil e delicada, como o próprio título sugere. O filme é fresco, leve. Nada parecido com a intensidade film noir ou, alguns mais recentes blockbusters franceses cheios de clichês à la Truffaut.

Esse filme é de uma “delicadeza” e doçura para poucos, para fortes, eu diria.

Uma personagem é francesa e a outra é japonesa; no entanto, ambas possuem o mesmo olhar feminino de encantamento em uma vida cheia de pequenas esquisitices materiais e sentimentais. Não é difícil identificar-se com as duas. Tão longe e tão perto destes universos, o enfrentamento das subjetividades de si com ambas é uma inesgotável experiência estética que o cinema francês e oriental podem nos oferecer como experiência, basta estar com ouvidos, olhos e corações bem abertos.

As personagens são femininas, fortes, criativas, sentem muito, às vezes choram, riem de si mesmas, são apaixonantes e, há que se aceitar o fato, atraem pessoas como elas, estranhas e esquisitas.

Entretanto, também sofrem em seus delicados mundos imaginados.

As duas, em algum momento nos filmes, aceitam a si mesmas nesta condição. O padrão, o formal, o normativo, ora, por quê? Aceitar-se como “diferentemente- estranha” é a mais libertadora descoberta.

Arrisco a dizer que é na diferença que reside o sabor mais doce e esquisito. Ah… é nas férias também!

Ana Paula Luz

É sempre-aluna do Colégio Medianeira e atual professora da Oficina de Artes Visuais e da disciplina de Arte do 8º ano do Ensino Fundamental. Formada em Belas Artes (FAP) e especialista em História da Arte (EMBAP), é ainda mestre e doutora em Arte e Educação pela Universidade de Barcelona.
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