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Família de Nairo Quintana, no Tour de France 2013.

Passado o tempo, perdidos os prazos. Meu primeiro texto no blog de Midiaeducação se chamou “nada a dizer” e tratava desta sensação de que sou acometido nestes tempos de profusão da informação.

Da figuração sugerida pela ideia de “guerra de informação” derivaram as analogias entre a informação e um arsenal bélico, entre a minha condição e a de um entrincheirado de guerra.

As analogias figuram a sensação literal e terrível: entrincheirado.

Abomino estas figuras bélicas, mas estou acuado. Os vários, muitos “exércitos” se perfilam insinuando suas oposições, e informações de diferentes graus de verificabilidade cruzam o campo de batalha das mídias. Evitar estas figuras pleiteando o que talvez seja minha única convicção política, a necessidade de desmilitarização do mundo, alijar-me-ia da expressão mais eloquente da experiência de estar imerso nestes múltiplos conflitos, sem muita convicção de coisa alguma e com aspirações em torno das quais as informações são escassas. Afinal, quanto se sabe sobre os grandes empreendedores bélicos – aqui, no sentido literal – do mundo? Quem são? Estas informações deveriam ser de tradição comum.

É assim que assumo minha condição de entrincheirado e inauguro esta série de missivas. Farei uma breve e periódica “correspondência de trincheira”, relatando uma ou outra informação que me parecer, daqui deste buraco, digna de nota. Missiva ainda tem a graça de compartilhar com míssil sua raiz etimológica latina, “mitto”, enviar.

Pois lá vai.

Já há semanas, final de Maio, o parlamento europeu deu uma guinada à direita na eleição de sua composição. Cresceu em representação parlamentar o que na Europa se chama “extrema direita”. É a expressão institucional de uma causa que tem expressões mais violentas nas ruas: conter o fluxo imigratório, que acirra a competição pelos postos de trabalho e sobrecarrega os Estados que, lá, são em sua maioria bons prestadores de alguns serviços essenciais e fiscais eficientes da prestação e oferta de tantos outros serviços e produtos. Às motivações socioeconômicas, que me parecem mesquinhas se indago a história da riqueza daquelas nações, somam-se as motivações culturais e políticas, que tornam o problema mais complexo. Culturas que oprimem de forma mais aberta e explícita o indivíduo e as minorias, ganham representatividade em sociedades que já trilharam um longo caminho de tolerância, ao menos quanto às liberdades individuais. Por fim, a extrema direita europeia tem o histórico ainda muito recente de segregação étnica.

E é aí que coincide outro evento curioso destas últimas semanas. A primeira vitória de um sulamericano em uma prova clássica do ciclismo mundial, o Giro d’Italia. De fato, uma dobradinha de colombianos numa das competições mais difíceis e prestigiadas de um esporte eminentemente primeiro-mundista. Segundo colocado no Tour de France do ano passado, Nairo Quintana, aos 24, desponta como um dos maiores ciclistas de seu tempo. Os ameríndios andinos desenvolveram aptidão inata para o esforço em altitude. É uma evidência do valor biológico maior, a diversidade.

Dá-me vontade e esperança de que esta discussão esteja perdendo seus matizes étnicos. Mas vem a Copa e atualiza os exemplos de preconceito étnico e racial.

Neste ínterim, em noites de trégua, no festival Olhar de Cinema, assisto a Dr. Fantástico e 2001: uma odisseia no espaço. São os contrapontos discursivos radicais tanto à mesquinhez das ambições materiais humanas, no caso de 2001, quanto ao impulso inconsciente, e quiçá ainda muito vivo, de extermínio do “excedente” humano para dar lugar a uma nova raça, gestada nos subterrâneos pós-cataclismáticos, à proporção de dez mulheres para cada homem, como deixa extravasar o próprio Dr. Strangelove, subitamente iluminado, curado de sua paralisia e saudando o líder da vez com um recém-desperto “Mein Fuhrer!”.

Gustavo Pinheiro

É laboratorista audiovisual do Colégio Medianeira, advogado e cicloviajante. Formado em Direito e graduando em Cinema, desdobra-se entre a advocacia e a edição de vídeo. Integra o Água Viva Concentrado Artístico, grupo que realiza diversas ações culturais na cidade de Curitiba.
Leia outros artigos dele aqui.