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Forget it – do Disco Cold Fact

O que delimita o sucesso ou o fracasso de um músico? O que torna alguns idolatrados e outros simplesmente esquecidos no tempo? As respostas poderiam ser da mais vasta gama, passando pelo montante de dinheiro investido em publicidade até a disponibilidade do artista para realização de shows. Resta dizer, como uma única verdade sobre as supostas razões para um músico ser relegado ao fracasso, que nem sempre qualidade é sinônimo de sucesso.

É sobre um desses casos que gostaria de contar hoje.

Sixto Rodriguez, ou ainda Jesús Rodriguez, ou apenas Rodriguez, é um cantor/compositor norte-americano, da cidade de Detroit. Ele teve uma curta carreira musical no começo dos anos 1970, vendendo poucas cópias de seus dois álbuns: Cold Fact (1970) e Coming from Reality (1971).

Seu estilo pode ser rotulado como folk music, do qual fazem parte artistas como Bob Dylan, Joni Mitchell, Phil Ochs, Leonard Cohen, justamente num período histórico em que o folk (do jeito que estes artistas o concebiam, diferente da popular folk music de outrora) estava em seu auge.

Sixto Rodriguez é o sexto (daí deriva seu nome) filho de um mexicano e uma norte-americana descendente de europeu. Suas composições versam, inclusive, sobre sua situação como descendente de um grupo extremamente marginalizado na época, o que pode ser uma das razões de seu insucesso.

Sua gravadora, que não era das maiores, Sussex, o despediu logo após da gravação do segundo disco, o que o levou a trabalhar na construção civil, no ramo específico de demolições e também em linhas de produção, ganhando pouco.

O que ninguém sabia, entretanto, é que do outro lado do Atlântico, especificamente na África do Sul, ele foi ouvido durante 25 anos, com vendas estimadas em 500 milhões de cópias, sem ter recebido um centavo por isso. Ele virou uma espécie de ídolo, inclusive, para a geração envolvida no Apartheid, os que estavam nas ruas protestando contra a ditadura. Certas músicas foram banidas das rádios e era proibido possuir um cópia do álbum.

No documentário Searching for sugar man, Stephen “Sugar” Segerman, proprietário de uma loja de discos, conta que seu primeiro álbum foi um dos mais populares na África do Sul. Enquanto os fãs possuíam informações sobre outros músicos em geral, sobre Sixto Rodriguez eles não sabiam sequer uma vírgula. Dado isso, circularam alguns boatos sobre sua morte: que durante um show ele teria se banhado em gasolina e ateado fogo no próprio corpo; e que durante um show, também, teria dado um tiro na própria cabeça. As informações sobre ele simplesmente não existiam.

Steve Rowland, que trabalhou com Jerry Lee Lewis, The Cure e Peter Frampton, foi o produtor do segundo álbum. Ele comenta que Rodriguez foi o seu melhor artista, o mais memorável. “Não apenas pelo talento, ele era como um sábio, um profeta. Muito além de um simples músico. E, talvez, poderia ter triunfado se tivesse continuado”.

Steven explica que ninguém sabe exatamente como a primeira cópia de Cold Facts chegou à África do Sul, mas uma das coisas que ouviu falar é que uma garota norte-americana chegou à Cidade do Cabo para visitar o namorado e trouxe uma cópia do disco. Muitos dos amigos gostaram e, como não era comercializado lá, começaram a circular cópias. Mesmo sem saber exatamente como isso aconteceu, o fato é que se espalhou rapidamente.

Foi a partir daí que Craig Bartholomeu e Stephen Segerman começam a fazer uma varredura para tentar localizar Sixto Rodriguez, até o ponto em que, amigo leitor, minhas palavras já não são suficientes para prosseguir com a história.

E para saber o que acontece, amigo, não se prive de conhecer uma das mais belas histórias contadas até hoje, assista a Searching for Sugar Man.

Ps: sobre a música do Sixto, acho que, parafraseando um querido professor – o Ferrari , ela deveria estar em qualquer ementa de curso superior de qualquer universidade do mundo; deveria estar sendo transmitida no lugar da Voz do Brasil; deveria estar em cada celular/computador/tablet comercializado. Todas as pessoas, enfim, não deveriam viver sem ouvir isso, sob a pena de ter uma vida sem alegria.

Diego Zerwes

É publicitário (UP) e Especialista em Literatura Brasileira e História Nacional (UTFPR). Trabalha na Comunicação do Colégio Medianeira. É tradutor (diletante) da vasta obra musical de Leonard Cohen, publicada periodicamente no Traduzindo Leonard Cohen.
Leia outros artigos dele aqui.