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Há um grande NÃO ecoante nas fronteiras que nossa sociedade, tão hábil em mecanismos excludentes, projeta nos céus para ser ouvido além do geométrico skyline da cidade loteada.

Um grande NÃO refletido no telhado de vidro do shopping center conferidor de holerites na entrada. Na estrada pavimentada de carros rumo ao feriado prolongado. No condomínio orwelliano cercado de jacarés eletrônicos. Na UTI de hospitais afundados em lucros asfixiantes. Nos quintais cada vez mais impermeabilizados de nossas residências. No acesso às línguas estrangeiras há muito comercializadas como se mercadoria e privilégio de poucos fossem.

Sim! Um grande NÃO!

Na verdade poderia lotar este espaço virtual com a falta de espaço do mundo real, e tornar este texto ainda mais monótono e óbvio do que já está. Mas, de novo, NÃO!

Procurarei o sim……

Vasculho cores em minha massa cinzenta perturbada diante do não. E em um esforço incomum, como se tivesse ingerido um soma em um admirável mundo novo, a minha frente vejo um corpo estirado ao pavimento da grande rodovia que beira minha casa.

Carros passam absolutamente focados em seus destinos finais. Seus ainda sonolentos motores roncam na manhã tirando fina daquele que já é um objeto inanimado. Já não se percebe o movimento de seu diafragma inspirando vida.

Mas onde estaria o sim em meio a este não?

Por entre as desumanas máquinas que cortam a vida e o pavimento, surge a indignação. Surge a raiva diante da indiferença e do descaso dos humanos blindados por suas vestimentas de grifes assassinas.

Sim… a raiva e a indignação personificadas em um cão. Um animal que incessantemente clama aos passantes por atenção para o que acabara de acontecer com seu irmão de raça desconhecida. Um ser que brada e exige que o mundo pare para o auxílio de alguém que a ele é caro e valioso como companheiro que foi.

Por seus latidos incessantes e em sua posição de ataque aos que passam, vi o sim em meio ao não, o barulho em meio ao silêncio, o movimento em meio à inércia, o fino caule que rompe o asfalto, a vida em meio à morte.

Poderia terminar este texto com o óbvio, associando simplesmente a indignação e a raiva daquele animal ao desejável comportamento que nós humanos deveríamos ter diante da passividade e das mazelas que nos acometem no contexto em que vivemos. No entanto, em um final pouco hollywoodiano, termino com a vitória do não sobre o sim. Não como alguém que se conforma diante do exposto e do imposto, mas como alguém que não mais sabe se em meio ao ecoante NÃO, ainda há espaço para que se ouça seu SIM…

Sugestões de Leitura:

Nós, os humanos verdadeiros – Eliane Brum
Admirável Mundo Novo – Aldous Huxley
1984 – George Orwell

alessandro