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A sala de aula dos meus sonhos exibiria filmes.

Na verdade, a sala de aula dos meus sonhos… é uma sala de cinema. Escura, tela grande, boa projeção, poltrona confortável, bom som, sem pessoas conversando… e exibindo bons filmes, é claro.

Cresci vendo filmes. Primeiro por influência dos meus pais. Desde pequeno, o ritual de assistir filmes era sagrado lá em casa. Montávamos uma “cama” em frente à televisão, apagávamos as luzes e meu pai aumentava o som. Minha mãe reclamava um pouco, “abaixa esse volume e deixa uma luz acesa”, mas meu pai insistia, “tem que ser como no cinema”. E eu ficava mais feliz, é claro. Aquilo era cinema. Não era novela, nem o telejornal, nem a corrida do Senna. Essas coisas a gente vivia assistindo também, mas com as luzes acesas, conversando e comendo uma bolacha.

Era começo da década de 1990 e não tínhamos grandes equipamentos eletrônicos, mas meu pai sempre teve a perspicácia de ligar o VHS no aparelho de som para que tivéssemos um melhor ambiente sonoro. Ele era esperto. E hoje eu sei bem que um filme não são só imagens – o áudio faz muita diferença.

Lembro de todo ano assistirmos ET, o Extraterrestre na Rede Globo. E sempre era um evento pra gente. No ano passado, depois de assistir ele umas dez vezes em casa durante a minha vida, pela primeira vez assisti com o meu filho num cinema. Nem preciso dizer que chorei abraçado com ele vendo o Elliott dar vida novamente ao ET e voar em sua bicicleta.

Toda essa introdução para dizer: faz toda a diferença a maneira como os filmes são apresentados e exibidos. O contexto faz toda a diferença.

Eu encaro o cinema como arte. Sou cinéfilo, posso dizer. Amo os filmes e preciso deles para viver. Eles me ensinaram e ensinam muitas coisas – sobre a vida, o universo e tudo mais. Assim como as músicas e os livros.

Dou oficinas de cinema. Meu objetivo é que os alunos vejam filmes e também façam os seus próprios. Mas, acho que não existe a segunda coisa sem a primeira. Por que iríamos fazer filmes se não gostamos de assistir filmes? O gosto se desenvolve. Quanto mais bons filmes você vê, mais refinado será o seu gosto. O mesmo para qualquer área – pense na gastronomia, por exemplo.

Pois, então, precisamos ver filmes. Para desenvolver nosso gosto, desenvolver nosso senso crítico… e até para fazer filmes melhores.

Chego na sala de aula e falo “hoje vamos assistir esse filme”. “Assistir filme não, professor!”, às vezes algum aluno diz. Pois é. Eu, como cinéfilo, acho um absurdo. Mas… ok, posso compreender.

Claro que preciso encontrar um equilíbrio para manter o interesse dos alunos. Assistir filmes, investigar lugares diferentes, propor jogos, conversar, ouvir, falar, brincar, produzir… Ensinar. Mas não posso esquecer que estamos ali num ambiente escolar – que, no meu ideal, é um ambiente de vanguarda – e ali devemos ver e fazer coisas extraordinárias.

Assistir um bom filme com conforto, boa projeção, boa companhia, boa apresentação…  Faz toda a diferença. Os bons filmes têm um espaço de fruição ideal: é a sala de cinema. Aproximar-se o máximo possível dessas condições é o melhor. Assistir um filme conversando, num ambiente disperso, numa tela pequena… Não é a mesma coisa.

O trabalho do professor de cinema é intermediar essa relação dos alunos com os filmes. Escolher o filme adequado, justificar sua escolha, apresentá-lo bem e, claro, compartilhar do momento de fruição. Afinal, qual o sentido de um professor propor algo aos seus alunos que nem ele tem vontade de fazer?!

alexandre