016-pedido-de-socorro

Dois mil e quatorze me parece o ano dos dois mil e tantos eventos um tanto quanto irreais: massacres nos presídios do Maranhão, copas dos mundos – sim, cada um assistirá a sua copa de um ponto de vista bem determinado: alguns no padrão F.; outros no Première; já outros nas TVS 49, 32, 21 polegadas compradas à prazo em 24 vezes “sem juros”… –, justiceiros da injustiça com as próprias mãos, as mil e uma asneiras da nossa Sheherazade – como é melhor a ficção!!! Bananas, metrôs e o preconceito revelado na forma de pesquisa com dados um tanto imprecisos… São tantos os eventos e tantas as respostas que já não mais sabemos onde e quando começou essa maluquice toda chamada sociedade pós-moderna.

Em meio a tudo isso, recordava na semana passada os tempos de universidade e a experiência de ser orientado por um professor ao longo de todo o curso, uma espécie de mestre condutor cuja função era dar um pouco de ordem ao caos do pensamento recém exposto aos tantos caminhos possíveis do saber. Em um dos nossos primeiros encontros, talvez o primeiro, ele me disse: “Veja bem, meu caro, os grandes pensadores passaram a vida a dar voltas em torno de apenas um problema”. A frase refletia o contexto de um aluno havia pouco imerso no espaço da universidade e sedento por ler tudo aquilo que lhe chegava às mãos. Missão bem impossível, dada a quantidade de obras que nos eram propostas diariamente. A frase, mesmo transcorridos tantos anos, ainda ressoa com muita força aos meus ouvidos e, fruto dessa formação mais clássica e sistemática (no sentido bem tradicional do termo), sempre me coloco a pensar o “problema de origem” ou o “fundamento”, princípio de inteligibilidade que, agregando vários problemas a uma arche, nos ajude a pensar o real em sua “coerência”, mais que em sua visibilidade caótica.

Caminho seguro ou não, continuo a pensar estruturalmente. E, dados os tantos eventos irreais deste 2014, tão díspares e distantes, qual seria o elo que os interliga? Fariam todos eles parte do mesmo Zeitgeist?

Uma característica implícita a todos eles é o fato de fazerem parte de um discurso um tanto quanto “irreal”. Talvez pela velocidade do discurso, pela pluralidade de narradores, pela instantaneidade entre o “nascimento e a morte”. A dinâmica segue alguns passos bem lógicos: leitura veloz, comentário, curtida, esquecimento e, por fim, busca por outra fonte. Por vezes até armazenamos a informação para pensar depois. Mas, dado o cenário de novidades, sempre nos chega outro evento mais interessante seguido de leitura veloz e… esquecimento. De certa maneira, esses eventos nunca começam porque, na verdade, nunca terminaram. Sendo todos eles da mesma família, sucedem-se uns aos outros diante de olhares superexcitados e perdidos de uma massa amorfa chamada Sociedade.

Em segundo lugar, todos esses “eventos” carregam o peso e a importância histórica da constituição de uma identidade cultural, social e política. Quem de nós teria a coragem de afirmar que o evento envolvendo o jogador de futebol e o torcedor lançador de frutas não carrega em si uma importância histórica, reveladora de uma prática há muito instituída e que tem no preconceito a sua marca distintiva? O mesmo se estende aos acontecimentos nos cárceres do Maranhão, dos massacres em praça pública, do machismo instituído… Com toda certeza, todos (ou uma maioria significativa) se colocam a pensar sobre o que está diante dos olhos. Mas, os caminhos e formas da mensagem são tão plurais, excessivos, maçantes que, em determinado momento, já não sabemos se esse acontecimento é algo profundo ou não, se merece ser levado adiante ou cair no esquecimento e, em breve, ele cairá no vazio e disso temos certeza!

O posicionamento do leitor ao entrar em contato com essas informações também é um tanto difuso e flutuante: um facebookiano é capaz de, em um intervalo menor que 24 horas: no início da manhã, desejar bom dia com uma frase afetuosa e uma foto de um cachorrinho ou gatinho indefeso; no meio da manhã, defender com unhas e dentes a Menoridade Penal e PROTESTAR contra a impunidade do “nosso país”; ao meio dia, postar uma imagem de um “preso” e um “trabalhador”, com indignação, narrando a diferença entre o “salário mínimo” e o “auxilio reclusão” ofertado aos familiares de presidiários (afinal, preso não é gente e o bom dia deve se dirigir só para cachorrinhos…); no meio da tarde, compartilhar um post sobre as injustiças sociais brasileiras e a necessidade de resgatar a dignidade da política; no final da tarde e expediente de trabalho, um compartilhamento de qualquer conteúdo da Revista Veja, algo como “A Disney é melhor que Foucault” e, à noite, antes do sono merecido, desejar a toda humanidade uma “boa noite, cheia de bons sonhos em uma cama bem quentinha”. Neste momento, não é demais reforçar, presos e menores delinquentes não fazem parte da humanidade, a não ser para nos servir como exemplo de que “lugar de vagabundo é na cadeia, não importa a idade e a história”.

Estranho, não? Falamos de vários problemas, mas, na verdade, falamos do quê? Temos algumas hipóteses, amigo leitor (talvez amigos leitores). Mas, antes que elas se tornem “leitura veloz comentário curtida esquecimento e por fim busca por outra fonte”, é melhor pararmos por aqui, já fomos longe demais. Guardemos um pouco para pensar.

mayco