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Os automóveis estão invadindo
A simpli(s)cidade

Versos de Sérgio Sampaio, na canção “Dona Maria de Lourdes”, de 1973.

Sim, os automóveis estão aí. Invadindo as ruas como um clichê de liberdade e mobilidade, povoando o imaginário das pessoas com promessas de status e agilidade. A publicidade não faz sozinha o trabalho sujo, mas sim toda a rede de “serviços” em torno desse modelo de vida tão almejado, todos juntos pela contradição. Desde as aulas de direção defensiva, em que circula aquela conversinha de que para acertar as questões da prova teórica é só assinalar tudo o que você na verdade não faria.

Há alguns meses, me chamou a atenção uma ostensiva propaganda, em banner gigante, na entrada de uma loja de veículos importados, com o seguinte slogan, que se referia a um modelo mini de carro: “O menos ajuizado da família, porém, o mais rápido.” Não é preciso muito esforço para perceber que se trata de um estímulo à contravenção. Lembro-me ainda de uma propaganda que circulou na década de 1990, se não me engano, criando a seguinte cena: um homem, antes de se deitar, já de pijama, entra na garagem, faz um carinho na lataria do seu carro com um olhar meigo, cobrindo-o com uma capota e, logo em seguida, vai para a cama, olha com desprezo para a sua mulher que dorme e cobre a si próprio arrancando dela a coberta. Dispensa comentários, não é?

Parece que os pilares do individualismo, da necessidade de status e da falta de ética estão sendo bem plantados há bastante tempo, o que somados a sistemas precários de transporte coletivo e à carência de vias de circulação alternativas, como ciclovias, têm feito um ágil trabalho no que se refere à criação da necessidade urgente de cada pessoa ter um carro tão logo complete os 18 anos. Quem não tem um carro passa a ser uma aberração.

Curitiba é, hoje, uma das cidades do país com a maior estatística de automóveis, numa média de quase 2 carros a cada 3 pessoas. No Brasil, há uma média de 1 carro a cada quatro pessoas. Se pelo menos fosse um carro para cada família de 4 pessoas até seria justo, mas ainda assim teríamos o problema do excesso de veículos. Mas há famílias de 4 pessoas com 4 carros na garagem. E não são quaisquer carros, e sim o carro do ano, e dos mais sofisticados, dada a velocidade com que se tornam obsoletos para os padrões de conforto criados pela indústria e pela publicidade.

Bairros no estilo “Soho” (super na moda em Curitiba) costumam ter um congestionamento fenomenal em alguns horários. Em compensação, as estações tubo nesses locais são quase vazias. E, observando os passageiros dos carros, o que se vê? Solitários ao volante. Há algum tempo, era comum uma família circulando em um carro, deixando cada um em seu lugar.

Está óbvio que o automóvel deixou de significar mobilidade e liberdade, uma vez que o trânsito trava e você não pode abandonar o seu veículo na pista. E também porque não pode deixá-lo estacionado em qualquer lugar, primeiro porque não há lugares suficientes para todos, e todos querem estacionar. Segundo, porque se alguém roubar ou avariar o seu carro só a franquia do seguro já é exorbitante, além da burocracia e do incômodo.

Li um livro que foi muito marcante pela antena que instalou com a sua ficção. Em Não verás país nenhum, Ignácio de Loyola Brandão abordou, em pleno início da década de 1980, questões que estavam no ar na antena de poucos. A maioria se deslumbrava com as inovações sem se preocupar com as consequências para a sua própria vida, quanto mais para a vida do planeta. Uma dessas questões, simbolizadas na alegoria de Ignácio, foi justamente o uso ostensivo do automóvel, o que gerou uma quantidade tão absurda deles que em dada noite a grande via da cidade travou, ninguém conseguiu sair do lugar, era o “Notável Congestionamento”, com quinhentos quilômetros de carros imóveis para sempre: “Buzinavam, aceleravam. Podia ver o ar preto de fumaça. A maioria esgotou a gasolina e o álcool do tanque. Ninguém desligava o motor. Pela manhã, as pessoas continuavam dentro dos carros. Como se pertencessem a ele. Câmbio, volante, freio, condutor. Esperavam, não sei o quê.” (Não verás país nenhum, p.130).

A cada dia, cerca de 160 carros novos circulam impunemente pela cidade, numa passarela deslumbrante e assombrosa. Lindos modelos e cores, novinhos em folha, querendo a cidade perfeita e a rua desimpedida, só pra si. Os problemas de trânsito são notórios, já que o belo carrinho não consegue fluir conforme o desejado. Já as consequências ambientais, a poluição e o excesso de sucata não são dignas de preocupação para todos porque não afetam o momento presente do condutor em sua máquina. Os automóveis são responsáveis por metade da poluição do ar produzida no planeta, e os EUA são campeões nesse quesito.

A indústria automobilística, que nos períodos de redução de IPI lucrou como nunca, não quer mais reduzir o ritmo alucinante de suas vendas, e já tenta minimizar os problemas ambientais, aliando-se às soluções científicas, como catalisadores e combustíveis alternativos.

Mas isso não resolve outros problemas – precisamos de soluções solidárias para o trânsito, como caronas, rodízios de carros entre colegas que moram perto, praticar a gentileza no trânsito e usar o transporte coletivo, reativando o senso de coletividade, tão adormecido ultimamente.

Mas isso passa ainda por um outro problema de cunho administrativo. Governantes devem agir para e pela coletividade, realizando obras significativas no sistema viário e no fomento ao uso de transporte alternativo, como a bicicleta, sobretudo criando ciclovias, e investindo no transporte coletivo de qualidade e com agilidade, conforto e segurança.

Como se tudo isso não bastasse, há uma espécie de jornalistas chinfrins que não conseguem distinguir um assunto relevante para a sociedade e partem para a degradação de quem usa o transporte público, dando seus flagrantes estúpidos a famosos que resolvem usar o coletivo, como se isso fosse um crime.

Mas enquanto “câmbio, volante, freio, condutor esperam, não sei o quê”, numa triste fusão de homem e máquina, outras pessoas pedalam, num esforço que faz inveja ao mundo sedentário e arregala os olhos da população e da administração pública para questões ambientais, de mobilidade e de saúde. O momento é crucial e envolve mudança de postura para a melhoria de todos. As coisas chegaram a esse ponto porque cada um fez um pouco para piorar. Agora é preciso inverter esse ciclo. Mesmo que nem todos pedalem, é preciso enxergar as alternativas de mudança. Ou, qualquer dia desses, a roda pára de girar.

martinha