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Foto de Bruno Ruiz.

Os dedos mindinhos das minhas mãos são tortos. Quando mostro um deles para as pessoas, elas até se assustam. Só ficam abismadas, entretanto, quando os coloco um ao lado do outro. Quando estão nessa formação, é possível notar que formam um Y,  ou uma bifurcação ou uma encruzilhada.

Nasci com essa particularidade, apesar de ter quebrado o mindinho da mão esquerda quando estava da escola, ainda na primeira série. Lembro bem desse dia, especificamente voltando para casa. Andava sozinho parte do caminho até que minha mãe viesse ao meu encontro (depois dessa informação, não posso precisar o ano exato em que o fato se passou). Por autocomiseração, talvez, carregava a mala justamente com mão esquerda, forçando, desse modo, o dedo que até então não sabia estar quebrado.

Meus dedos, enfim, não trouxeram problema algum até o dia em que fui ter a primeira aula de violão. Quando mostrei o dedo torto ao professor, ele falou que definitivamente aquilo não seria um problema. De fato, não foi. O problema mesmo foram todos os outros e a minha falta de coordenação. Desde então venho praticando – sem regularidade, entretanto – a arte de tocar violão.

Há épocas em que fico lá, ruminando tablaturas, lendo cifras, tentando tocar as músicas que admiro. Passados dez anos da primeira aula, posso dizer que consigo tocar uma meia-dúzia delas – todas simples, que fique bem claro. Não quero ser tomado como alguém que toca violão, simplesmente porque não. Eu toco (pra mim), mas não ao ponto de admitir isso. Quando me perguntam: “Você toca violão?”, respondo que sei coisas bem básicas e que isso é tudo, mas efetivamente não toco. Se elas tem a oportunidade de ouvir o som que emana do instrumento quando o manuseio, é preciso pouco tempo para confirmarem que menti, que não domino nem as coisas bem básicas.

Nesses casos, percebendo o desapontamento dos outros, tenho o seguinte devaneio: aponto para o meu dedo mindinho esquerdo e digo, “Veja, a culpa é toda dele. É dele e dessa mão pequena. Tá vendo essa nota aqui, é um dó menor sustenido, repare que o dedinho não tem a envergadura pra alcançar essa casa. Eu vou comprar um violão infantil, com um braço menor, com trastes menores, aí sim farei essa e todas as outras notas possíveis de serem reproduzidas num violão”.

O que pretendo dizer com esse texto, na verdade, não passa pelo meu dedo torto, nem pela mão pequena (esse fato realmente não influencia em nada), nem pela parca habilidade em dedilhar as cordas. O que eu queria te contar é que, ao ler a biografia do Leonard Cohen e conhecer em detalhes o trajeto percorrido por ele até se tornar um cantor/compositor aos 33 anos,  fui tomado pela mesma sensação de autocomiseração (narrada no início) por não poder fazer da minha vida música, de viver dela.

Essa reclamação não é válida, contudo. Está mais para uma anedota, uma piada sem graça. As coisas que faço pra sobreviver, do jeito que estão, me contentam. Sou, sim, um apaixonado pela música. Quando pego o meu violão e arranho suas cordas não estou sendo nada além de um diletante.

Pelo menos ainda me sobram os dedos tortos, os quais ainda posso culpar.

diego