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011-escuro

O plano era ir até a cidade e voltar para onde havia montado minha barraca antes de o sol começar o segundo turno. Uma chuva daquelas de pé de serra deu margem a uma conversa sem pressa com um sujeito também sem pressa. Quando decidi retornar, o sol, que já nem se via, ia caindo com vontade.

O começo da subida da montanha foi numa penumbra clara e as silhuetas ainda mostravam variações de tonalidades – troncos, folhas, pedras. Parecia que tudo o que tinha no pensamento naquele momento eram os próprios instantes visíveis do lugar, os elementos que ali figuravam.

A escuridão mesmo da noite chegou antes de ser percebida. Notei, então, que no espaço de tempo entre a noite ser e eu saber a noite, estive ainda com o pensamento nos marrons, verdes, laranjas, nos cinzas do céu… Mas o breu foi mandando o pensamento pra memória.

(Nosso dia a dia está amontoado de elementos visuais – reclames publicitários, artes, natureza, sinais de trânsito, espelhos. Um lançando o outro para a memória).

Com o escuro verdadeiro, só sabia onde pisava ao pisar. Fazia-o com cautela pra não bater pedra com pedra e chamar a atenção dos animais que eu já imaginava. E dos sons que vinham da mata: barulho pequeno pra bicho pequeno; barulho grande pra bicho grande. Não era medo, mas imagens.

Continuei a subir, achando que a sacola plástica dentro da mochila fazia muito barulho, mesma coisa sobre meus passos e minha respiração. No caminho, onde trilhos de trem cortavam a mata, o claro que havia no céu me deu visão pouco nítida das paralelas metálicas. Acompanhei com o olhar e, sobre os trilhos, olhos redondos brilharam no escuro a me perceber. Aí, sim, foi medo. E, de novo, imagens.

Agora, o que eu via fragmentado pela noite, minhas imaginação e memória iluminavam. Houve um primeiro momento, menor que frações de segundo, em que os olhos foram só olhos e eu, instinto. Rapidamente também, vieram a onça, a jaguatirica e – depois de eu correr alguns metros – a paca, o porco-do-mato. Imagens que a realidade fez buscar na memória.

Dali até a barraca foi pouco. O cansaço venceu logo os pensamentos e os sons que sempre vêm da mata durante a noite. Na manhã seguinte ficou tudo mais claro.

bruno