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Imagem do filme Zero de conduta (Zéro de conduite), de Jean Vigo, 1933.

Até uns doze anos de idade eu era um ótimo aluno. Nem sei direito por quê, mas fazia questão de ir bem na escola e tentar tirar notas melhores que os outros. Era caprichoso, dedicado e esforçado. Talvez tenham sido meus pais que me convenceram quando eu era ainda menor que devia me destacar pelo desempenho acima da média…

Mas, daí, na passagem da sexta pra sétima série, de repente… Desisti da escola. Cheguei à conclusão que aquilo era meio inútil, que eu aproveitaria mais a vida fazendo outras coisas e estando em outros lugares… Claro que mudanças drásticas e repentinas na minha vida familiar e pessoal contribuíram para essa decisão.

Então simplesmente desisti de estudar, ir bem nas provas e frequentar a escola diariamente. Aprendi a matar aulas de diferentes maneiras, a estar na sala e com a imaginação em outro lugar, a abstrair da minha presença física… Não podia largar tudo, pois sabia que fazia parte do meu “pacto social” e então eu precisava cumprir as exigências mínimas.

Me lembro da aula de geografia, com a professora Ignez, que era a mais velha da escola e dirigia um Fiat 147. Tirei 10,0 nos três primeiros bimestres e 3,0 no ultimo, como parte do meu novo estilo de vida. Como a média na escola pública que eu estudava era 5,0, sabia que já tinha “passado” e aquele quarto bimestre era simplesmente protocolar. Atingir a nota mínima não era difícil.

Enfim, até a minha saída do ensino médio fui um aluno bastante ausente, dentro do possível. Nunca repeti de ano ou “me dei (muito) mal”, porque sabia o que precisava fazer para atender ao protocolo – a média e a frequência mínima de 75%. E fazia o mínimo possível mesmo. O que era suficiente.

Anos passaram, segui minha vida, encontrei minha profissão e hoje faço aquilo que gosto. Trabalho com educação. Sou professor e também estudante – de novo. E tenho um filho de sete anos, que na última semana recebeu a primeira advertência na escola por “mau comportamento”. A mãe dele também trabalha com educação. E a madrinha é professora infantil. Nem preciso dizer que a escola é um assunto corriqueiro entre nós, mesmo sendo pais separados. Então eu disse, “filhote, não sei se é sorte ou azar seu… Mas você é filho e afilhado de professores. E uma coisa que não posso aceitar de você é que você desrespeite os seus professores”. Eu tento explicar pra ele que ele tem várias regalias e que faz parte da nossa “troca” essa sua dedicação à escola. Todos nós trabalhamos. Eu trabalho em algo, a mãe dele em outra coisa e ele trabalha frequentando a escola, aprendendo e produzindo conhecimento. É a sua obrigação e a sua contribuição para o mundo. Pois todos que vivemos nesse mundo precisamos contribuir de alguma maneira.

A questão é que eu ainda não sei muito bem como convencer o meu filho da importância de ir para a escola. Ele adora ter amigos, conversar e brincar fora das aulas. Mas também considera que frequentar aquele espaço todos os dias é a parte mais chata da sua vida. E eu consigo entender muito bem, porque boa parte da minha vida achei a escola muito chata. Só que hoje considero esse ambiente e tempo fascinantes, aberto a inúmeras possibilidades, mesmo que geralmente elas sejam frustradas por inúmeros fatores que não darão para discutir aqui agora. Continuarei pensando; quem sabe em breve eu terei alguma iluminação. Gostaria que meu filho compreendesse essa paixão que eu tenho pelo conhecimento e pelo estudo. Mas, transmitir esse tipo de coisa, definitivamente, não é fácil. Por enquanto, fico eu aqui fazendo a lição junto e aparentemente me divertindo mais que ele…

(Obs.: a minha diversão é real. Tenho aprendido novos métodos de calcular em matemática, repensado a história e a geografia urbana, além de praticar com diligência a minha caligrafia.)

alexandre