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O Hexágono de Saturno

No ensaio cujo título se traduziu em Português como “experiência e pobreza”[1], Walter Benjamin nos fala dos combatentes da Primeira Guerra Mundial que voltaram silenciosos do campo de batalha. É o próprio Benjamin quem nos lembra que aquela geração ainda fora à escola num “bonde puxado por cavalos”. Viajaram, saíram – muitos, pela primeira vez – de suas vilas, viram-se em cenários insólitos e experimentaram o novo em escala e teor pavorosos. No entanto, das muitas experiências vividas, poucas eram comunicáveis porque eram experiências “desmoralizadas”. O filósofo nos dá os exemplos: “a experiência estratégica pela guerra de trincheiras, a experiência econômica pela inflação, a experiência do corpo pela fome, a experiência moral pelos governantes.” E ao final, nada a dizer.

O ensaio procede, então, a uma análise desta nova forma de pobreza, a de experiências comunicáveis, com tal acuidade e prodigalidade de referências que me custou muito arriscar a analogia rasa entre a condição do combatente que retorna silencioso e a minha própria condição. Estou entrincheirado num conflito que tenho chamado, num emprego também raso do termo, de “Guerra de Informação”. Mas a analogia se insinua, irresistível. Estou, de fato, entrincheirado e silente. Tenho andado muito silente. Ao final de cada batalha, cessam as rajadas e nada a dizer.

É uma guerra. Mesmo que eu e você não queiramos assumir quaisquer hostes, há inimigos declarados: posicionamentos ideológicos, cosmovisões, olhares sobre o homem, sobre a cidade e até mesmo dietas. O mural de expressões individuais das redes sociais revela, de repente, que seu amigo é, também, seu oponente. De fato, sempre foi assim, até porque a fundação da amizade é a fidelidade e não o consenso. Mas agora é preciso tolerar, de um eventual amigo oponente, a ofensa aberta, a veemência, a ironia e generalidade das declarações. A publicidade imediata que se pode dar ao devaneio matinal, à ira repentina, à contradição eloquente, torna este espaço um campo de batalha de lutadores esmerados. Descobrir que o amigo é um oponente provoca, aqui e acolá, o rompimento de estreitos laços. Sofremos, dizemos um adeus virtual e buscamos lugar e amparo nas nossas trincheiras.

Lembro aos afeiçoados ao exercício retórico que não falo das batalhas frutíferas, se não prazerosas, nas quais o embate de ideias agiganta o espírito humano. Acentuo que estou falando de uma certa Guerra de Informação. E sua novidade são as armas.

Sim, há inimigos e há armas. A informação se realiza e se aperfeiçoa em sua mera expressão, por qualquer indivíduo. É, portanto, essencialmente indiferente à possibilidade de aferição e à verificabilidade. Diz-se, e pronto. Ouve-se que, e basta. Lê-se que, e a informação está madura, comunicável, engatilhada.

À semelhança da experiência farta mas incomunicável porque desmoralizada, a informação hoje é abundante mas está prejudicada porque sua procedência pode ser uma fábrica obscura de mentiras.

Mentiras, simples assim.

Cito o exemplo do célebre e-mail, posteriormente adequado a um post do facebook, que descrevia os critérios de uma suposta “bolsa bandido”, que remuneraria o cidadão brasileiro sob custódia estatal com montantes multiplicados em função da prole. O cálculo é risível e a contradição institucional desta informação pelo INSS persegue, embora com menor eficiência, as ondas de propagação desta mentira. Em diversas circunstâncias já tive que advertir interlocutores de corpo presente sobre a falsidade dessa informação. Ela já vigora numa espécie de senso comum dos desavisados e contribui para azedar os ânimos da nação, já tão exaltados no que tange às questões de segurança. Quem fabricou esta bomba? Esquecemo-nos que este texto, em algum momento do passado, foi deliberadamente composto. Meditemos neste momento e consideremos sobre este fabricante. Quem ele é? Que interesses defende? Como ele compreende a própria estratégia?

Um exemplo mais recente é o da pesquisa do Instituto de Pesquisa e Economia Aplicada, o IPEA, sobre a violência contra a mulher, cujos resultados primeiramente divulgados motivaram uma importante reação da sociedade – ou ao menos de sua parcela que se expressa nas redes sociais – diante do violento machismo que exprimiam. Pouco se questionou, a princípio, o caráter infeliz das próprias perguntas. Itens de pesquisa como “você concorda que em briga de marido e mulher não se mete a colher?” parecem aparentemente concebidos para captar, pela identificação, as dicções populares mais infelizes, espelhos deste patriarcalismo tradicional e arraigado, que torcemos para estar, já, sendo lentamente minado do ideário brasileiro. Quem “concordava”, afinal, não estaria antes reconhecendo o “ditado” que manifestando uma concordância refletida com seu sentido?

Tais questionamentos, contudo, logo se viram superados pela revelação de que os resultados estavam equivocados! Confundiram-se, aparentemente por bobo acaso, dados de dois gráficos diferentes. Não mais 65,1% concordavam total ou parcialmente que “mulheres que mostram o corpo merecem ser atacadas”, mas 70% discordam total ou parcialmente da afirmação. Um alívio? Ora, permanecem ali os 26% que concordam total ou parcialmente com este absurdo e tal parcela continua a justificar toda espécie de campanha que combata esta mentalidade.

No entanto, que impressão assustadora tivemos, por longos dias, do que pensa o brasileiro a respeito da violência contra a mulher! E que prejudicial o arrefecimento da questão, que se seguiu ao reconhecimento do equívoco pelo IPEA!

Fato é que a imediata publicidade que se pode dar a qualquer informação, à sua reprodução e às manifestações que a mesma suscita, somada à noção memética de que a informação tende a se espalhar num impulso viral, faz com que o sensacionalismo seja o seu veículo mais comum. É preciso que a informação espante, surpreenda, seja bombástica! Na Guerra de Informação, esta expressão beira a literalidade.

Recentemente, tive contato com a informação de que haveria, na atmosfera de Saturno, um hexágono de diâmetro maior que o da Terra, inexplicavelmente formado pela caótica dinâmica dos gases e localizado em um dos polos do planeta. O fascínio da “descoberta” me dá vontade de comunicá-la a um amigo com a exclamação: “Você sabia que tem um hexágono gigante na atmosfera de Saturno?” E talvez eu até corra este risco entre os mais íntimos. Mas, no geral, a comunicação desta informação exige de mim o cuidado: “Há imagens, atribuídas à sonda Cassini, que confirmariam observações feitas anteriormente, de que haveria um hexágono na atmosfera de Saturno. Estas imagens foram publicadas pela Nasa. Vai saber, né?”

Estes tempos verbais, os muitos apostos, a hesitação e a fala inconclusa, são o procedimento padrão de um entrincheirado na Guerra de Informação, exausto de ouvir zunir as ogivas. Este cansaço, no mais das vezes, causa mesmo é a frustrante sensação de nada a dizer.

GUSTAVO

 


[1]     BENJAMIN, Walter. Obras escolhidas. Vol. 1. Magia e técnica, arte e política.
        Ensaios sobre literatura e história da cultura. Brasiliense, 1987, p. 114-119.