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Floresta Atlântica, pé da Serra do Emboque: névoa se engruvinhando entre os morros, tateando sem pudor cada insinuação de vale, aspergindo água benta pelo santo ciclo hidrológico. Mas, engana-se quem pensa que a paisagem da Floresta Atlântica é essencialmente visual. Não obstante, os muitos tons de verde e do aveludado da selva, os fragmentos azulados de céu despido entre as copas reverberantes de vida das árvores, a paisagem é, quem sabe, mais sonora do que visual. Quando os primeiros raios do sol aquecem a mata, as cigarras afinam seus violinos. Começam devagar, suave e logo alcançam os tons mais altos, mais vibrantes, enlouquecedores. Os  pássaros definem seus territórios a chilros: Na geopolítica das aves canoras, os tratados de limite são disputados em escalas musicais, em tons e semitons, fronteiras musicais, ora respeitadas, ora violadas. Disputadas a grito. Há o fremir sutil das asas de centenas de borboletas e o estalar de suas cópulas no ar.

De súbito o vento cessa. Por alguns instantes, parece que a paisagem retém a respiração. Sem vento, nem uma sacudidela nos galhos mais tenros das árvores. Tudo se cala, inclusive os pássaros. Distante inicia-se uma nova toada. Parece uma cavalaria que se aproxima. É o som da água que desce vertical, cabeça na nuvem e pés no solo. A chuva não cai, ela despenca, desaba, anunciando que o verão se despede e o outono se aproxima. O rugir do toró que se aproxima já é uma orquestra toda entoando uma sinfonia num movimento mais do que andante.  Quando então a chuva dá a água de sua graça e se despeja sem cerimônia sobre mim, pareço reconhecer algo em meio ao tilintar líquido das teclas: a considerar o estardalhaço da gargalhada com que as rajadas da chuva se arremessam, só pode ser um movimento alegro.

A chuva e a floresta. A água e a vida em sua insaciável  tagarelice. Os segredos, sussurrados ou alardeados aos quatro ventos, nunca se esgotam. Por séculos e séculos, amém.

chicho

 

 

 

 

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