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Foto: Priscila Forone

 

Acho que o ano era 1997, quando foi inaugurado o Estação Plaza Show em Curitiba (atual Shopping Estação). Era um “espaço de lazer e entretenimento”, que negava ser um novo shopping, e prometia trazer “diversão diferenciada para a cidade”. E a diferença se notava logo de cara, pois havia cobrança de entrada para todos que pretendessem colocar os pés nesse espaço destinado às elites e classes médias de Curitiba. Era um negócio bizarro, com catracas na entrada do prédio situado no centro da cidade, em um terreno anteriormente ocupado pela RFFSA. Porém, ao invés de provocar estranhamento na maioria do público, era fato corriqueiro ouvir de diversas pessoas a típica opinião elitista a respeito de tal cobrança: “É bom porque seleciona, não vai deixar qualquer um entrar”…

Menos de dois anos depois, o negócio faliu, as catracas foram retiradas e o empreendimento se transformou em um shopping como os demais. Contudo, o pensamento reacionário da “seleção de pessoas” não desapareceu tão facilmente.

Hoje, passados mais de 15 anos dessa manifestação do elitismo paranaense, ouvi outro relato de uma situação similar, só que o cenário era o litoral do estado. Todos sabem por aqui, que a praia de Caiobá sempre foi considerada pela classe média como o ponto de ostentação da riqueza dos “bem nascidos”. Enquanto isso, o balneário de Matinhos é reservado para as classes populares e suas bagagens, crianças, farofas, cachorros e tudo o mais. Cercas reais nunca existiram, mas o distanciamento sempre foi muito bem delineado pelo preconceito de classe.

Entretanto, esse cenário já não está mais tão claro e confortável para nossa bela classe média, pois com a maior distribuição de renda dos últimos tempos, as classes populares tem cometido a ousadia de colocar seus pés em Caiobá, frequentando as pousadas, os restaurantes, as lojas e… a praia! E foi justamente no calçadão de Caiobá, que um casal de amigos ouviu uma manifestação direta da angústia da classe média com tal mudança. Uma senhora branca, com suas roupas de grife, e com a cara salpicada de maquiagem e botox manifestava na fila do caixa eletrônico sua indignação diante do absurdo “daquele povo pobre e feio”, em quantidade assustadora naquela praia! Quando ela comprou seu apartamento em Caiobá, “o ambiente era mais selecionado”!!

Talvez diante do desespero dessa senhora (e daqueles que compartilham sua mentalidade excludente), a saída fosse transformar o balneário de Caiobá no Estação Plaza Caiobá, instalando catracas para permitir (ou não) a entrada das pessoas naquele espaço público (mas que muitos insistem em reivindicar como privado). As catracas poderiam cobrar uma entrada que excluísse os mais pobres, e a segurança se encarregaria de impedir a entrada de negros, homossexuais, comunistas, e tudo o mais que amedronta a cabeça dessa gente.

Pena para a senhora pobrefóbica, que isso é ilegal, e que suas lamúrias não vão trazer de volta o elitismo que existia nos tempos que ela julgava bons. Resta a ela amaldiçoar as classes populares, fazer o papel ridículo de proferir ideias tão reacionárias e excludentes, e talvez sonhar com o dia que em que os pobres “retornarão a seu devido lugar”!

luciana