the-wall

Sequência de frames do filme The Wall, do Pink Floyd

O exemplo talvez seja desinteressante, mas espero que sirva pra ilustrar o que vem a seguir:

Desde que comprei meu carro em 2010, e mesmo sendo bom ledor de manuais, nunca entendi porque a fábrica dizia para não colocar mais gasolina do que um limite estabelecido pela própria montadora. Certa vez cheguei a um posto e pedi “bem cheinho” porque eu ia viajar. A bomba chegou ao limite automático, mas o frentista foi colocando mais e mais. Couberam 20 litros além daquele máximo estipulado “aleatoriamente” pela fábrica. A viagem foi ótima, o tanque rendeu que foi uma maravilha. Desde então, toda vez que pegava a estrada, pedia ao frentista: “bem cheinho, até a boca”. E ficava fingindo que queria compreender as razões pelas quais a montadora estipulava um limite bem abaixo do que de fato cabia no tanque. Mas eu sabia que boa coisa não deveria ser, alguma frescura, algum risco absurdo de explosão, alguma culpa do capitalismo, ou do governo (hoje em dia, tudo é culpa do governo), e encerrava o assunto, feliz da vida porque a minha viagem é que interessava, a minha aparente economia, a minha tranquilidade de não precisar abastecer tão cedo.

Dia desses vi no posto a campanha “Não passe do limite – complete o tanque até o automático”: risco de vazar combustível, dano ao ambiente, presença de substâncias cancerígenas no benzeno e que causam problemas muito sérios ao frentista – irritação nos olhos, na pele, dores de cabeça, câncer e danos neurológicos que podem ser fatais.

Pronto, eu não tinha mais como fingir, não tinha mais como colocar a culpa em coisas obscuras, num outro anônimo que ditava normas estapafúrdias e que vinha rotulado pela minha consciência preguiçosa como alguém do mal, inimigo dos meus interesses inocentes.

Além da descoberta do risco causado pelo benzeno, isso tudo me fez pensar sobre as nossas verdades cristalizadas, as certezas que formamos dentro de nós e que não estão no objeto analisado, mas nas nossas vontades de que as coisas sejam do jeito como nós as queremos. Torcemos o objeto para que ele se molde ao nosso conforto individual, seja esse objeto um comportamento, a História, o outro. Não tentamos entender o comportamento, a História, o outro. Fazemos algo mais simplório: formatamos o objeto ao sujeito que somos.

Na verdade, isso é quase inevitável, mas tem um problema: frequentemente, com ou sem consciência, trapaceamos. Se temos um amigo imaginário dentro da nossa cabeça e que sugere que as coisas não são bem do jeito que pensamos, que devíamos ler mais, experimentar novos pontos de vista, conhecer antes de rotular, damos um jeito de amordaçá-lo ou de enganá-lo, tentando convencê-lo de que sempre, inequivocamente, estamos certos.

A internet e as redes sociais não criaram sozinhas o fenômeno, mas deixaram ver que cada pessoa passou a ter e a ser uma síntese do mundo. Se antes a Igreja, o Estado, a Guerra Fria etc nos davam a síntese da vida por meio de suas grandes narrativas e paradigmas, com a fragmentação destas instituições, é cada um por si, meu nego. E Deus continua não sendo o mesmo para todos. Todo mundo tem a síntese do mundo e não há síntese quando há milhões de sínteses diferentes. Se, num extremo, tínhamos instituições pensando por nós, o que era um problema sério, agora todo mundo tem palpite para tudo, fazendo-nos cair em outro extremo igualmente problemático porque palpite não é necessariamente pensamento, conhecimento. Mas mobiliza.

Louvemos a diversidade, claro. Mas só vou louvá-la de fato se as diversas diversidades estiverem dispostas a entender a lógica, a experiência e as razões do outro. Pegar um tacape e impor o seu ponto de vista eliminando (às vezes até fisicamente) o outro é o que o homem faz desde que se conhece, literalmente, por gente. Crianças também fazem isso, querendo impor sua vontade a todo custo. E o que fazemos? Tentamos mostrar a elas que não é assim que as coisas acontecem, que todos precisam ceder às vezes, que negociar e conversar nos faz entender os motivos do outro. Seja nos primórdios da humanidade ou nos primórdios da vida humana individual (o bebê), a intransigência sempre pautou as “relações”, e a educação e o conhecimento (formais ou não) é que podem tirar de nós essa tendência para a imposição da vontade individual a qualquer custo.

Repetir o modelo do tacape, que tantas vezes deu errado, não pode ter outros nomes: ignorância, ou má-fé e desprezo pelo coletivo. Ou tudo junto.

E aí, posso dar nome a um dos bois, ou à horda de babuínos que pedem o retorno da Ditadura Militar no Brasil. Desenredam o passado e fazem-no caber no campo de visão limitado de um horizonte minúsculo de palpites vestidos de pensamento. E, seria cômico se não fosse trágico, estão quase sempre associados a discursos cristãos.

Não sejamos preguiçosos. Comecei este post dando um exemplo de preguiça pessoal, pois não quero ser o arrogante sabedor de todas as respostas. Mal sei as perguntas. Mas não sejamos preguiçosos.

Sugiro que, depois de uma opinião contundente pedindo o retorno da Ditadura – ou suas variações: depois de xingar e defender a porrada nos pobres da favela, nos “crackentos”, nas pessoas que querem viver sua sexualidade da maneira que bem entendem – e espalhar correntes de oração na rede social, o vivente que profere esses palpites vá para frente do espelho e repita 33 vezes, olhando nos próprios olhos: “eu não sei o que estou dizendo”, “o buraco é bem mais embaixo e não é o meu umbigo”, “o mundo não tem o tamanho da minha cabeça”, “o jeito como eu penso não é a síntese iluminada da vida”, “tudo o que eu defendo já foi feito e deu m…”.

Eu aprendi com o exemplo simples do tanque de gasolina. Eu tinha me fechado numa certeza inconteste. Mas inconteste apenas para a minha cabeça desinformada e apática. Agora, nada de “bem cheinho, até a boca”. Então esse papo de retorno da ditadura só serve para nos deixar as orelhas bem cheinhas, para não falar outra parte do corpo, pois isso aqui é um blog que preza o pundonor.

*

Ou esse texto é mero palpite?

 cezar