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É domingo de manhã. O sujeito acorda ritualmente às 6h. Prepara um café, mune-se do primeiro volume de Corpo de Baile, de João Guimarães Rosa, e dá continuidade às leituras iniciadas na noite anterior. Até aqui, nada de novo. Talvez enfadonho para algumas muitas cabeças vagantes. O hábito que se tornou cultura é uma jaula de onde não podemos sair. Estamos condenados à leitura. Será?

O movimento contínuo, sequencial, uniforme, pausado…esvai-se mais uma página. E, de página em página, desfolha-se o livro e a vida.

Chega-se ao fim, mais uma vez, do primeiro volume. O enredo não foi descoberto no ineditismo, pois outras viagens nesses trilhos já haviam sido travadas. O que se revela na pureza do primeiro batismo é o detalhe, o diverso, o enviesado da palavra que, como por mágica, renasce entre o abrir-fechar das pálpebras.

Aquelas anotações à margem rabiscadas por um viciado: primeira leitura dia…segunda leitura dia…terceira leitura…quarta leitura, nova frase, novos grifos: “Miguilim, achavam de exemplar por conta de tudo, mesmo num tempo com esse, que faltavam seis dias, do comum diferentes?”…avançamos mais na narrativa e, surpresa, “Pensar nela dava sobre-coragem, um gole de poder de futuro”…e o rito do desvelamento segue seu ritmo. O léxico e a topografia roseana recordam que a linguagem refrata a realidade. Como o existir, somos na forma de palavra. Que significados?

Avista-se, à frente, a última página. Seria o fim da “Estória de Lélio e Lina”? O fim do primeiro ato do baile? Que leitor, desde a invenção da escrita, pôde superar com tranquilidade o trauma da última página? O derradeiro momento, na verdade, chega para quem? Para a obra que depois de fechada voltará ao estado de dicionário? Ou o miserável leitor que sendo um na primeira página, não mais se reconhece como idêntico a si mesmo na última? Não sendo o “si”, também não é o outro (narrador, história, autor, obra…). Encontra-se na terceira margem do estranhamento.

Como na existência, depois de toda ruptura, recomeço.

O “sujeito” – seria possível, neste momento, falarmos com tanta segurança de um “sujeito”? –, ou o emaranhado de sensações fecha mais uma obra. Serve outro café. Dirige-se à Babel de possibilidades e toma nas mãos mais um volume. Não deseja outro corpo nem Baile, a festa foi longa e exigiu boas forças do sábado para o domingo.

Depara-se com um “Há muito e muito tempo, quando os homens ainda falavam línguas muito diferentes das nossas…”. Michael Ende. Ingressa em outro tempo, espaço. Tempo de há muito. Como localizar o tempo no espaço? Que tempo é esse de há muito, muito…? Seria o tempo do era uma vez? Pretérito imperfeito, perfeito, mais-que-perfeito? Somente o tempo e a topografia do romance poderá responder essas perguntas.

E a leitura das páginas torna-se leitura da alma…

mayco