Estava desempenhado, de alma e corpo ocupados: tecia os delicados fios com que se fabrica a quietude. Eu era um afinador de silêncios.

Mwanito, personagem principal do livro Antes de nascer o mundo – Mia  Couto

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Foto de Diego Zerwes

Nos últimos tempos tenho me incomodado com uma questão, há uma concepção muito forte sobre leitura que une esta ao prazer.  Até aqui tudo certo, ler é viajar é uma máxima, viajar é prazer, felicidade. Mas a questão é: o que é prazer e felicidade hoje? Parece-me que juntar leitura e prazer pode ser um risco, se o prazer significar facilidade, degustação rápida, descompromisso.

Comecei a pensar sobre isso, na verdade, um dia desses, quando ganhei de presente de aniversário um livro. Uma árvore seca na capa e em letras brancas o título: Antes de nascer o mundo. O fato é corriqueiro, mas neste caso há algo de especial: eu nunca havia lido nada do renomado moçambicano Mia Couto.

Confesso que adoro ganhar livros, pois um livro é mais que um objeto físico. Com este livro, por exemplo, ganhei  Mwanito, o narrador personagem, afinador de silêncios, que aprende a ler e a escrever às escondidas e lá pelas tantas afirma “Deixo de ser cego apenas quando escrevo”. Pelas palavras dele o leitor é conduzido pelo enredo mítico e metafórico.

A história é linda! Mas aí me veio uma questão: é uma história linda em sua feiura, não é linda porque é feliz, é linda porque é vida e vida é contradição, choque, conflito. Esta ideia, no entanto, parece incompatível com a concepção que leitura é prazer. E acho que não é, de fato, é experiência estética, ou é um outro tipo de prazer, se preferirem.

Ler as mais de duzentas e setenta páginas deste livro não me deu prazer fácil, imediato, descomprometido, exige dedicação, tempo, disciplina. Como recompensa, esta experiência estética me ajuda a ler o mundo, mas de novo, ler o mundo não é felicidade, do tipo fast food, ler o mundo é dolorido. E aí está a riqueza do negócio, é bom porque é dolorido, é bom porque desinstala. Segundo Viviane Mosé, alegria é alargar a alma, é neste sentido que ler é bom, é  felicidade.

 

juliana