011---mulher

Que nada nos defina. Que nada nos sujeite. Que a liberdade seja a nossa própria substância.

(Simone de Beauvoir)

 

Certa vez, num passado muito, muito distante, quando as primeiras mulheres desse mundo estavam dormindo, uma voz lhes disse ao ouvido que deveriam viver segundo a vontade dos homens, amando-os e servindo-os até que a morte os separasse. E elas acreditaram, se encarregando das tarefas domésticas e da educação das suas filhas, para quem se tornaram a voz do sono (e a voz do dono) para que a vontade dos homens se realizasse pela eternidade dos tempos. E tudo se fez para que a voz não se apagasse dos ouvidos dormentes das mulheres, que passaram a pertencer aos homens, e estes começaram a ter cada vez mais vontades para que as mulheres tivessem uma ocupação.

E o que cada uma trazia dentro de si foi encolhendo, se transformando num lampejo lascivo, no mais medonho dos pecados, que devia ser calado e escondido, tornando impura a alma da pobre que ousasse ter uma vontade própria. E assim se fez. Elas se tornaram medo e recolhimento, pagando seus pecados escondidos no desvelo por seu homem e por seu lar.

Era preciso garantir que as filhas não sofressem a dor do desejo das primeiras mulheres que chegaram a conhecer a liberdade e a vontade do seu ser. Então elas ensinaram as suas filhas a não ter dentro de si nada, a não ser a nobre missão de servir àquele que a tomasse por sua mulher, e a ele deveria dar filhos e educá-los para a continuidade daquela nova forma de vida: meninos vão em frente, vão à luta, aprendam as coisas da vida, conheçam muitas mulheres e escolham aquela que pode dar bons frutos e ser-lhes fiel. Meninas, preparem-se com toda virtude para a chegada daquele que irá escolhê-la e encolhê-la.

E assim se fez até que um homem e uma mulher decidiram se olhar dentro dos olhos e ler bem lá no fundo que algo havia além da voz do sono, e que aquela voz não vinha de dentro deles. Então resolveram segurar nas mãos um do outro e apenas sentir as sensações que seus corpos lhes permitiam. E descobriram que havia algo além dos corpos, que fazia aquecer a sua existência a partir daquele encontro de olhos, de peles, de carnes e de almas. E decidiram que sempre se encontrariam dessa forma, e que os seres nascidos desses encontros aprenderiam a olhar para os outros seres daquela maneira que seus pais haviam reinventado, naquele dia, naquele encontro.

E a partir de então os seres humanos começaram a reaprender a igualdade, a não temer o encontro das suas liberdades e a entender que seria uma longa batalha ensinar isso às gerações seguintes, e até hoje estão tentando. Mas sempre outras vozes vêm em ondas, para dizer às pessoas dormentes que há coisas mais importantes que a liberdade e que as emoções, que isso tudo é bobagem, e que a felicidade é um pedestal dourado capaz de fazer todos os outros humanos se curvarem ao seu poder.

Se por um lado essa voz ressoa ainda através dos tempos, por outro os olhares se multiplicam sem culpa, numa reação histórica e numa experimentação do sentido da existência que não tem mais volta. Quem conseguiu uma vez olhar no fundo dos olhos do seu semelhante percebe o valor da sua diferença.

A partir das reflexões despertadas pelo ‘8 de março’, resolvi fazer essa pequena alegoria, inspirada nas lindas histórias de Eduardo Galeano. A história da humanidade é farta de episódios em que a voz do dono soou mais forte: assim foi com as mulheres, com os negros arrancados de suas terras e escravizados pelo mundo, com indígenas roubados em suas terras e em sua cultura, e com minorias castigadas pela diferença em relação a padrões estabelecidos por instâncias de poder.  Mas a liberdade, essa aspiração humana que brota naturalmente em cada ser que nasce e vive, se constrói entre desejos, lutas e conquistas diárias que habilitam esses mesmos seres a compreender o direito de liberdade dos outros, seus semelhantes na condição de humanos, porém diferentes em história, cultura, gênero, raça, crença e tantos outros fatores que, ao diferenciar,  dão identidade aos grupos humanos.

E aí está a mulher, diferente do homem. Diferente, mas não inferior. A mulher ainda tantas vezes reduzida pelo preconceito, pelos estereótipos e estigmas. Quem inventou a fragilidade da mulher, quem a colocou em condição de submissão ao homem, quem mercantilizou o seu corpo, quem criou padrões bulêmicos de beleza, quem disse que brincar de carrinho é coisa de menino e brincar de casinha e de boneca é só para as meninas, quem a chamou de rainha do lar, quem a deixou à margem do trabalho e da história?

E quem acreditou? E quem continua acreditando nisso tudo? E quem continua cochichando ao ouvido de seus filhos enquanto dormem que para realizar suas vontades é necessário derrubar os outros? Que para ser homem é preciso diminuir a mulher? Que para ser mulher é preciso sublimar sua vida em favor do marido e dos filhos?

Enquanto isso outros encontros acontecem, na essência humana da liberdade, na exata compreensão das escolhas pessoais do outro, na soma dos direitos e desejos para a construção da coletividade e no entendimento de que a negação da liberdade é um assassinato lento e doloroso.

O holocausto silencioso a que foram submetidas as mulheres para o conforto dos homens termina onde se dissolve aquele antigo padrão de mulher (sem “gosto ou vontade, nem defeito, nem qualidade, com medo apenas”- Chico Buarque, em Mulheres de Atenas), e onde nasce um novo conceito de homem, que não teme a sua “porção mulher” (Gilberto Gil, em Superhomem, a canção), que entende que ser sensível não compromete a sua masculinidade, que ser viril não é ser estúpido e violento.

O aprendizado do encontro, que se deu nessa pequena história, revela um novo horizonte, em que as conquistas se multipliquem e a educação familiar não sublime a vida das suas mulheres e de ninguém mais, em que a virtude não seja a anulação, a aniquilação da alma para o reinado absoluto de um gênero sobre o outro: essa é a luta, para estarem os seres lado a lado e não um à frente do outro.

martinha