Cada um aprende e apreende da vida aquilo que lhe convém, e acaba por reproduzir esta ou aquela lição, mesmo que da sua maneira. Aliás, melhor ainda que seja da sua própria maneira, singular, idiossincrática, e, de alguma forma, sempre e mais original.

E não é mesmo este o ciclo: uma seleção, uma reciclagem, uma reutilização (ainda que com nova roupagem)? Uma reapresentação, agregada de novas cores, interpretações e valores?

Quando soube da possibilidade de escrever o presente texto senti que, de alguma forma, deveria agarrar a oportunidade com as mãos cheias e ávidas. Logo, cá estou, tentando fazer valer as minhas palavras. O motivo para escrever não me é lá muito óbvio, mas me pareceu uma boa maneira de falar coisas que eu creio que merecem e devem ser ouvidas, e também um modo de retribuir alguns dos tais ensinamentos que aprendi e apreendi, desde e principalmente nos tempos de colégio. Inclusive, desde já, gostaria de frisar: não tenho dúvidas de que consegui visualizar e aproveitar muitas das oportunidades que tive vida afora graças ao que consegui absorver na escola.

Não há um objetivo claro e bem traçado, ou um ponto exato ao qual pretendo chegar ao final deste texto, mas descobri que a própria vida as vezes é assim. Então decidi que, quem sabe, seria interessante contar um pouco da minha história.

Talvez as minhas palavras se traduzam em uma mera leitura-passatempo para alguns; talvez as páginas impressas se tornem papel de rascunho, bilhetinhos, ou matéria-prima pra confecção de aviões e bolinhas de papel; ao mesmo tempo, paralelamente, talvez ainda isso tudo se traduza em um acalento para outros – e creio que logo vocês hão de entender por quê.

Em 1999, na terceira série, entrei; em 2007, no terceirão (e em ano de comemoração dos 50 anos do colégio!), saí. Cruzei e cruzaram o meu caminho um bocado de colegas e um bom tanto de professores, vi e vivi várias olimpíadas, e adotei, com uma boa dose de carinho e paciência (nem sempre desde o começo, admito), incontáveis lições, semana após semana, ano após ano. Ao fim, senti um buraco no peito, o qual resolvi preencher com todas estas memórias.

Curiosamente sempre fui do fundão; mas uma representante do fundão aplicado e esforçado, no qual os professores pareciam confiar. Sempre tive enorme facilidade com história e geografia, línguas em geral, e até mesmo artes (achei tão triste quando soube que, ao passarmos para o ensino médio, não teríamos mais aulas! Mais curiosamente ainda, para o alívio de muitos). As disciplinas de exatas sempre foram o meu “calvário particular”, mas, ei, eu sobrevivi pra lhes contar esta história (que ficará menos chata, eu lhes prometo, então continuem lendo!).

A minha verdadeira paixão, no entanto, sempre foi pela escrita. Creio que o Tio Fabi e o Marcelo Sanches poderiam falar por mim, se é que de mim ainda se lembram. Se duvidarem, vocês podem ainda consultar algumas das coletâneas da minha época; lá eu pude estampar, com uma boa dose de orgulho juvenil, textos meus, que vão ser parte da história do nosso colégio pra sempre.

Lembro que passei o último ano inteiro me preparando pra prestar vestibular para Direito; fazia com atenção e empenho as atividades extras da Valesca, da Geralda, e também as do Loivo. Na “hora do vamô  vê” acho que surpreendi a todos – e inclusive a mim mesma: decidi prestar vestibular para Biologia. Culpa da (excelente) influência da Magali e da Roberta!

Nunca me arrependi desta decisão, e até hoje sou grata. Não só as duas últimas, mas a todos: quando nos dizem que o aluno Medianeira é diferenciado, acreditem; isto não é balela, ou pura jogada de marketing. Percebi isso claramente, já na minha primeira semana de aulas, como caloura de Biologia na famosa e almejada Universidade Federal do Paraná.

Muito estudo, esforço, lágrimas, paralisações e aprendizado depois, vejo o quanto mudei – e o quanto que, de alguma forma, ainda sou a mesma. Muitos parecem crer na ideia de que a essência é imutável; quanto a isto não tenho certeza, logo, prefiro a cautela ao me pronunciar. Mas lhes garanto algumas coisas: ela muda de forma, absorve o que está ao seu redor e, com um bom tanto de esforço e sorte, ela cresce, se expande, e dá frutos.

Enquanto cursava Biologia, comecei a dar aulas de inglês, uma grande paixão, desde os tempos de aulas com a Liana. A capacidade de me doar aos alunos e de me conectar com os mesmos, enquanto faço algo que gosto – e que os inspira a se dedicar e aprender – eu gostaria de atribuir, principalmente, a três grandes exemplos que felizmente tive: aos apaixonados da geografia, Chicho e Mauro, e a apaixonante do espanhol, Laryssa. Cinco anos dando aulas; cinco anos ensinando e aprendendo.

Após duas greves (sim, pequeno gafanhoto, aspirante a Federal: o ensino – que em muitos casos continua sendo de qualidade – e o status – sejamos todos realistas e sinceros – tem seu preço), muita “ralação” e inúmeras lições – não só dentro, mas também, e muito, fora da sala de aula –, eis que lhes escreve uma bacharel em Biologia.

As dificuldades do caminho foram apenas um prenúncio do que viria ao final desta fase: um diploma na mão, e muitas dúvidas na cabeça.

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Ser um profissional da Biologia, hoje, no nosso país, não é fácil. Mas também, considerando bem, o que é?! Biologia não é uma das profissões mais ricas em vagas, ou compensatórias financeiramente. Ela enfrenta hoje a competição ferrenha, com cursos vistos como “do amanhã”, tais quais Biomedicina e Engenharia Ambiental. Com o perdão pelo trocadilho mas, de fato, nem tudo são flores.

No entanto é, sim, uma profissão de extrema e crescente importância e necessidade, e é carente de profissionais responsáveis, cientes e comprometidos com o que fazem. Ela requer estudo constante e a níveis deveras profundos. Exige também profissionais dedicados, e cada vez mais – frente às questões que os nossos modelos políticos e de produção diária e progressivamente nos apresentam – éticos, “corretos” e íntegros.

Ainda não sei exatamente em qual área me especializarei (ou mesmo se não abraçarei de vez o ensino das línguas, e encararei a faculdade de Letras Português-Inglês, enquanto me dedico, ainda, ao constante estudo do espanhol – e com sorte, e logo, francês!), mas uma coisa é certa: continuarei estudando. Tenho fome por saber e aprender, e venho cultivando essa ânsia saudável desde que me sentei em cadeiras similares as que vocês, que hoje me lêem, estão sentados. Ela encontrou solo fértil nas terras do colégio, porque, principalmente de mim (impulsionada por quem lá trabalhou e trabalha), partiu a vontade de semeá-la e regá-la com afinco.

Coloco-me no lugar dos alunos do presente, principalmente os do ensino médio, e percebo que muitas das questões que me colocava nessa época continuam, de uma forma ou de outra, a serem mais ou menos as mesmas. Achamos respostas, refazemos ou reformulamos as perguntas, ou mesmo encontramos novas variantes. E a busca – felizmente – não cessa. Estranhamente, isso soa reconfortante; o tempo passou, mas, de alguma maneira, a essência ainda está lá. E mais: vejo hoje que ela claramente se expandiu.

Meu rosto engana, e muitos crêem que eu mal tenho 18; ainda assim, de maneira engraçada e irônica, já começaram a me aparecer os primeiros fios brancos. Por mais que o tempo pareça passar de maneira veloz, e a lembrança de que este ano já faço 24, sei que ainda sou extremamente nova. Ainda tenho muito tempo a minha frente.

Tempo pra seguir por este caminho, pra me arrepender, achar um caminho novo, e seguir em frente. Ou ainda tempo para descobrir que o segundo caminho também não era o mais adequado, reajustar o GPS, e achar uma nova rota, alternativa. Realmente, não importa; de alguma maneira tenho uma fé relativamente inabalável de que, mesmo não sabendo exatamente para onde estou indo, estou no caminho certo.

 

* Pra ler, ouvir, e se inspirar:

  • “Pra não dizer que eu não falei das flores”, Geraldo Vandré;
  • “I don’t want to be”, Gavin Degraw;
  • “The road not taken”, Robert Frost;
  • “Isso de querer ser exatamente aquilo que a gente é ainda vai nos levar além”, Paulo Leminski.

 

Maritsa Kantikas, Sempre-aluna do Colégio Medianeira.