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Galeria Principal da Gruta da Lancinha

Naquela manhã, o terminal de ônibus escolar do Medianeira parecia uma rodoviária dos sonhos de qualquer mochileiro. A Semana Cultural se compunha de dezenas de cursos realizados entre uma segunda e a sexta. No para-brisa de cada ônibus o destino estampado em papel A4. Um ia ao teatro (Cleón Jaques?) da treze de maio, no setor histórico; outro ia para o Museu Alfredo Andersen, ali por perto. Outro ainda ia ao Pinheirão e a turma pisava no gramado e nos vestiários do estádio. Era o pessoal das artes e da bola. Aliás, eram os primeiros passos das oficinas de teatro, artes plásticas e futebol, que alguns anos depois passariam a acontecer no decorrer do ano todo. Um terceiro exibia “Museu Paranaense”, lá no pelo prédio hoje conhecido por Paço da Liberdade e levava um bando de mini-arqueólogos. Outro ia para a Ilha do Mel… ou melhor: para Pontal, e lá aguardava a turma passar o dia na ilha. Mais um para o lado leste, mas esse parava no meio do caminho: era a turma que ia fazer um trecho do colonial Caminho da Graciosa. Todo mundo voltava com um pouco de dores nos pés e muito cheiro de mato tragado pelas narinas. Havia também um ônibus – ou era um disco voador – que levava o pessoal não sei para onde, pois eram os que cursavam Ufologia. Mas preciso me delongar um pouco em dois determinados ônibus.

Um trazia na frente os seguintes dizeres: Espeleologia I : Campinhos. O outro, não ficava por menos: Espeleologia II: Gruta da Lancinha, Rio Branco do Sul. Ocorre que era isso mesmo. Chegamos a oferecer dois cursos de Espeleologia – a ciência que estuda as cavernas – ao mesmo tempo. O curso básico, para os iniciantes e o curso avançado, para a turma que havia feito o básico no ano anterior. E nesse curso de aperfeiçoamento em Espeleologia, se tratava de Espeleofotografia, com a experiência inigualável do Darci e uma Iniciação à Topografia em Caverna, entre outros assuntos que eram acompanhados também por apostilas especialmente elaboradas. Por certo, isso tem lá a sua dose de culpa por termos entre os membros mais ativos do GEEP-AÇUNGUI (Grupo de Estudos Espeleológicos do Paraná), em suas inúmeras expedições de descoberta, reconhecimento e topografia de cavernas (invariavelmente a cada fim de semana), vários alunos ou ex-alunos do colégio. Que me perdoem os que a memória me trair, mas como esquecer da dedicação de uma turma tão empenhada e capaz como o Tico (Ítalo), o Shuji, o Suzuki, o Adalberto Miura, o Miles, o Dirceu Deboni, o Kantek – esse fora de série -,  o (Edmundo) Neto, o Guilherme Shuhli – que mais tarde veio a ser um dos nossos professores, em Biologia… e diacho, sei que estou esquecendo de mais gente… Essa turma mapeava cavernas, classificava espeleotemas (aquelas formações minerais das mais variadas formas e tamanhos), identificava bichos – os troglóbios- , havia aqueles que viviam com rede para coletar morcegos!  Em Lancinha, a segunda ou terceira mais extensa caverna do Estado, percorria-se os seus condutos com água pela cintura. E a gurizada de pouco mais, pouco menos que quinze, dezesseis anos não hesitava!

 

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Mapa da Gruta da Lancinha, desenvolvido no final dos anos 1980 e início dos anos 1990, com a participação ativa de uma garotada do Medianeira

Francisco Rehme, o Chicho.